2as Sem Carne

Rita de la Rochezoire

 

Rita de la Rochezoire . Actriz e argumentista do programa "5 para a meia-noite"

 

P: Geralmente opta por realizar as suas refeições de 2ªf fora de casa? Acha fácil encontrar restaurantes que tenham essas opções? Ou costuma cozinhar em casa comida vegetariana?

R: No meu caso não são só as segundas. São já quase todos os dias de semana. QUASE. Costumo cozinhar em casa precisamente por não ser fácil encontrar opções vegetarianas nos nossos restaurantes para não falar na questão financeira que já todos sabemos qual é. E, sinceramente, porque também gosto. Dá-me prazer cozinhar as minhas próprias refeições, não só porque dessa forma faço ao meu gosto, mas como assim sei realmente o que é confeccionado e, em alguns casos, de onde vêm esses mesmos produtos. E se sei que os vegetais vieram da senhora X que tem uma hortinha no campo, melhor me sabem.??

 

P: O que o motivou a tomar esta decisão?

R: A paixão pelos animais e a noção de que é urgente uma mudança nos nossos hábitos alimentares. As consequências daquilo que comemos têm um efeito muito significativo para o planeta. Aliás, um dos mais fortes de todos...e que a maioria das pessoas desconhece. Este excessivo consumo de carne não só é prejudicial para a nossa saúde, como se traduz num impacto muito negativo para o ambiente. O ser humano é o único ser que se reconhece como um ser moral, por isso, é nossa obrigação tentarmos retardar os danos que há muito começaram a ser feitos. É fundamental consciencializarmo-nos de que a natureza não humana é mais do que um simples recurso ou meio para fins humanos.

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P: Julga importante informar mais pessoas neste sentido? e porquê?

R: É essencial. Estamos perante um desafio cuja resposta a dar terá que passar por uma alteração dos padrões de comportamento e a institucionalização de uma lógica de prudência. Haverá sempre um determinado grau de antropocentrismo, todavia é crucial estabelecermos regras de conduta que tenham como princípio provocar os menores males possíveis à natureza. É necessário procurar controlar o presente e reparar o passado em benefício do futuro. As questões ambientais devem ser tratadas com a mesma importância que a atenção reservada às questões económicas, sociais, políticas, etc. Na verdade, nenhuma outra questão merece mais atenção por parte da humanidade. Mas enquanto continuarmos a pensar e a agir em nosso próprio proveito, os animais continuarão a ser utilizados apenas para benefício do ser humano. O comboio já descarrilou...agora temos que o travar e, para isso, o homem terá de adoptar um novo conceito para fazer parte da sua filosofia de vida: a Ética Ambiental. Tudo aquilo que existe tem o seu grau de importância. Esgotar os recursos do planeta é pôr em risco o futuro de todas as espécies. É uma atitude auto-destruidora.

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P: Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R: Sim, mas também estou ciente que muita gente não. Habituados a ouvirmos falar na poluição como um dos principais responsáveis pelo aquecimento global, ignoramos, na verdade, o causador número um desse problema: a pecuária intensiva. Explicando isto como se fossemos todos criancinhas – que afinal é isso que somos…criancinhas a brincar com a pistola carregada que o pai guarda na mesa-de-cabeceira -, por mais absurdo que possa soar, sim, são os gases e arrotos que milhares de animais amontoados libertam, que contribuem para a maior percentagem geradora do aquecimento global. Sim, é o metano naturalmente produzido durante o processo de digestão desses animais. Então a culpa é deles? Claro que não. É do homem que, de forma antinatural, junta e cria outras espécies motivado por interesses económicos e ignorando as consequências da manipulação de seja qual for o produto (leite, carne, etc). Mas os efeitos desta indústria não ficam por aqui. Florestas continuam a ser transformadas em terrenos de plantação de soja que, por sua vez, servem de alimento para esses animais. E ainda há a questão do destino final a dar ao elevado volume de resíduos que nessas instalações são produzidos. O tratamento assombroso nas unidades de pecuária intensiva, não devia passar incólume. Mas convém a muita gente, muitas marcas, muitas empresas, andarmos todos de olhos e ouvidos tapados. No final de contas, o mundo não mudou assim tanto desde que a Alemanha estava sob domínio de Hitler, pois – e para citar Theodor Adorno “Auschwitz começa sempre que alguém olha para um matadouro e pensa: são apenas animais”.??

 

P: Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar? O que foi?

R: Não, nem sempre pensei assim, se bem que sempre simpatizei mais com animais do que com pessoas…verdade seja dita. Porém nunca fez sentido para mim animais em circos, ou touros a serem espicaçados com bandarilhas, ou até mesmo aqueles empregados de restaurante que vão até à mesa exibir a enorme sapateira viva antes de a mergulhar em água a ferver. E eu ainda como peixe. Há pessoas que gostam de me atirar à cara o seguinte argumento: “Não gostas de tourada, mas comes isto ou aquilo…” – argumento esse que não é minimamente válido, a meu ver. Porque uma coisa é a sobrevivência, são os hábitos alimentares enraizados, é um equilíbrio nutritivo…e outra, são estes rituais, são estas formas de “entretenimento”, é esta falta de respeito para com os animais – perfeitamente escusável – que mais não serve senão para dar a estes seres, que connosco partilham o planeta, uma morte lenta, sofrida e humilhante. A preocupação crescente para com os animais, fez com que, ao longo dos tempos, fosse vendo a realidade com menos e menos neblina na frente. Com menos areia nos olhos. E, claro, a minha ligação com o PAN faz com que, cada vez mais, queira ter um papel mais activo, mais exemplar e mais difusor. Já dizia Dalai Lama: “Sê a mudança que queres ver no mundo”.??

 

P: Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R: Especismo também é uma forma de preconceito. Sou capaz de abraçar um cavalo, como uma galinha. Aliás, as galinhas podem comportar-se inclusive como autênticos cães ou gatos quando pedem festinhas. Eu já testemunhei isso. Muita gente discrimina os membros de outras espécies por serem diferentes, por – supostamente – serem menos inteligentes e não terem a capacidade de sentir prazer ou dor. Jamais vou querer fazer parte desse número obtuso. Não consigo escolher um preferido. Há animais mais amistosos, mais dados…e há outros mais desconfiados.??

 

P: Acha que sabendo mais acerca da senciência animal e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação?

R: Não tenho a mais pequena dúvida. E quando pensarmos que a nossa atitude não vai ter o menor impacto no mundo, lembremo-nos do que disse Anita Roddick: “If you think you're too small to make a difference, you've obviously never been in bed with a mosquito in the room". Retomando a ‘ética ambiental’ que há pouco referi, este paradigma de pensamento reflecte sobre os valores que devemos atribuir ao ambiente e sobre os valores que devem orientar a nossa relação com o mesmo, tendo como pressuposto o reconhecimento de que o ambiente deve ser objecto de valor. E ambiente são também todas as espécies animais. Mas para isso é urgente uma mudança de mentalidade, uma nova conduta que passe por uma consciencialização ambiental e um pacto de preservação para com a Natureza.

 

P: Acha que se não comer carne a sua saúde fica debilitada?

R: Não se soubermos compensá-la. Uma alimentação pode até ser muito rica mesmo que não inclua carne. Não é como fazem determinadas figuras públicas que querem ser magras, não se informam das coisas, e depois vêm para a imprensa dizer que ‘andavam subnutridas’. Somos privilegiados com os alimentos que temos à nossa disposição. Só temos que saber escolhê-los.

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