2as Sem Carne

Manuela Gonzaga

Manuela Gonzaga . Escritora

P: Qual é o tipo de alimentação que a Manuela faz?
R: Desde há vários anos que a minha alimentação é muito vegetariana, embora com quebras e falhas. Ainda como peixe. Mas por exemplo, ovos, só de galinhas criadas ao ar livre, o que não é difícil porque até o minipreço já os vende, e tenho um supermercado biológico muito perto de casa. Além do mais, adoro genuinamente, legumes e leguminosas e é facílimo criar pratos excelentes com esta base.
 
P: O que a levou a aderir a esse tipo de alimentação?
R: É um longuíssimo processo. No final dos anos 70, estive muito próxima do regime macrobiótico. Em 75 eu e um namorado costumávamos até viajar com os tachos de barro nas mochilas, depois de termos queimado vários tachos de metal na casa das pessoas, com as nossas receitas muito puras que implicavam arroz integral queimado e fruta bichada. As minhas, as nossas motivações eram de natureza… metafísica. Acreditávamos que este processo de purificação orgânica nos levaria à purificação espiritual. Mas fui macrobiótica pouco tempo. Um dia, no fim de cozido à portuguesa em casa dos pais do meu namorado, durante o qual todos se banqueteavam enquanto nós mastigámos arroz sem graça nenhuma, dei por mim, na sala de jantar vazia, a encher a boca com rodelas de chouriço. Uma humilhação e uma grande derrota pessoal, quase chorei. Contudo, ficaram muitas sementes de conhecimento e atenção ao valor dos alimentos e à importância daquilo que se come.
 
P: A Manuela costuma frequentar restaurantes vegetarianos ou prefere fazer as suas refeições vegetarianas em casa?
R: Adoro alguns restaurantes vegetarianos que, de forma geral, são escolhas seguras. Mas onde se come bem, mas mesmo bem, é em minha casa). Cozinhar é um acto de partilha. Tudo é importante. O que usa e como se usa, e até o que se conversa durante uma refeição. Tem de haver alegria e gratidão. E ética. E amor, amor, amor.
 
P: Tem algum prato vegetariano preferido que queira partilhar connosco?
R: Fiz recentemente um caril de lentilhas, que todos comeram e choraram por mais. E ontem, cozinhei uma feijoada de seitan fumado, que estava divinal.
 
P: Está ciente dos problemas que o consumo exagerado de carne causa no Planeta?
R: Absolutamente. Foi esse, aliás, o grande motor de «contágio» por esta prática, cá em casa. A informação está toda aí, no Youtube e noutras redes, e só não vê e não sabe, quem não quer ver nem saber. Por exemplo, o problema do peixe, que adoro, é a contaminação dos oceanos. Ou as condições medonhas onde são criados – como por exemplo no delta de rios tóxicos, como o Mekon, no Vietname, de onde vêm aqueles filetes de peixe muito branquinho e totalmente nojento. A taxa de metais pesados é tão elevada, que é preferível não abusarmos do consumo, embora ainda se possa comer bom peixe apanhado no Atlântico, muito dele na costa portuguesa. Quanto à carne, a forma intensiva como é criada, destruindo habitats e florestas, e roubando toda a água potável disponível numa certa região... trata-se pura e simplesmente do maior crime ambiental que está a ser cometido em nome do apetite desenfreado e irracional de certas populações. Acresce que o corpo o humano não foi desenhado para metabolizar tanta proteína e isso vê-se no estado de saúde das pessoas, em termos estatísticos.
 
P: Recentemente os cientistas disseram que os animais têm consciência tal como os seres humanos . Pensa que este tipo de percepção acerca dos animais contribui para uma maior abertura das pessoas em relação ao vegetarianismo?
R: Eu gostava de responder pela afirmativa, mas não tenho a certeza de que, em termos estatístico, isso pese muito. Pessoalmente, foi essa tomada de consciência que determinou a minha opção gradual pela alimentação vegetariana. Mas nunca a impus aos filhos. Para outras pessoas pode ser mais decisiva a importância negativa e fatal da produção industrial de carne, à escala do planeta. Já o meu marido, ao fim de várias horas a visualizar programas de informação nessa área, ficou tão horrorizado que decidiu tornar-se vegetariano. Neste campo do acordar de consciências, porque é disso que se trata, lembro-me sempre da resposta do mestre ao discípulo que estava muito ansioso para conseguir a receita de ser vegetariano: «és capaz de comer o teu cão?», e ele enojado: «agrhhh mestre, nunca!», pronto, respondeu o sábio, «quando sentires isso por todos os animais és vegetariano». Comigo foi mais ou menos assim. Deixei de comer porco há muitos anos, quando soube que a sua inteligência e sensibilidade era enorme. Por esse motivo, nunca fui capaz de comer carne de cavalo, e há anos havia aqui um talho no Bairro Alto muito frequentado. Só de passar à porta me fazia impressão. Coelho… não sou capaz, faz-me pena. Passarinhos, coitadinhos, fazem-me muito impressão… vaca, até parece que vejo os olhos delas a olhar para mim, quando passo pelo campo, e elas estão ali todas tranquilas a mastigar erva. Há anos que isso me impede de comer bife. Mas galinha ainda vai, de vez em quando. Enfim, não posso dizer que me tornei vegetariana a cem por cento nem sequer que isso acontece de um momento para o outro. Estou no caminho.
 
P: Pensa que estes assuntos relacionados com a alimentação (crueldade para com os animais, impacto no Planeta, etc.) deveriam ser mais divulgados pela população?
R: ABSOLUTAMENTE SIM!! Mas essa informação ainda colide muitíssimo com a grande indústria, que é totalmente dessensibilizada e acéfala. Só pela força dos números é que essa mesma indústria cosmética, alimentar, farmacêutica e outras irá corrigindo os seus targets e os seus vícios. Os números, logo as tendências, são determinados por nós: ao não comprar certos produtos em detrimento de outros, fazemos as regras e influenciamos os mercados. Logo tornamos mais visível e mais audível o nosso tipo de opções. E isso reflete-se igualmente sobre as correntes de opinião e sua visibilidade.
 
P: O que pensa deste movimento, das Segundas-feiras vegetarianas?
R: Quando era pequena, em nossa casa não se comia carne às sextas-feiras, porque a nossa educação católica assim o determinava. Não era sacrifício nenhum, pelo menos para mim que até preferia peixe. Agora, e por uma questão de equilíbrio ambiental ter-se começado um movimento destes, que já corre por inúmeros países, é incrível! De modo que, com todas as suas contradições, estamos a viver tempos esplendorosos. As revoluções começam sempre no interior de cada um. Gota a gota, convergimos num rio imparável. Adoro este movimento.

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