2as Sem Carne

Paulo Oom

Paulo Oom . Pediatra

Entrevistado por Gabriela Oliveira*

P: A alimentação vegetariana é adequada na infância?
R: A dieta vegetariana pode ser iniciada logo nos primeiros meses de vida. Não há qualquer inconveniente para o crescimento e desenvolvimento das crianças, desde que sejam assegurados alguns cuidados.

P: Que vantagens encontra neste tipo de alimentação?
R: Tem vantagens e desvantagens como em qualquer regime alimentar. Habitualmente está associada a um maior consumo de fibras, frutas e legumes e a um menor consumo de gorduras e colesterol, o que reduz o risco das crianças desenvolverem doenças relacionadas com a alimentação, desde reações alérgicas, intoxicações alimentares, obesidade, doenças cardíacas, aterosclerose, hipertensão... Vários estudos têm mostrado que há também uma menor incidência de certos tipos de cancro entre os vegetarianos. Como grande parte dos pais que optam pela alimentação vegetariana têm preocupações ambientais e de saúde, os filhos acabam por adotar hábitos mais saudáveis, bebem menos bebidas gasificadas, comem menos açúcares, aditivos e conservantes. Mas a alimentação vegetariana só por si não é uma garantia de ser saudável ou mais saudável do que a alimentação convencional. É preciso que a alimentação seja variada e equilibrada e que os bons hábitos sejam mantidos. Não vale ser vegetariano e comer só doces e batatas fritas!

P: A carne e peixe podem deixar de ser encarados como alimentos «obrigatórios» no prato das crianças?
R: Sim, desde que se substituam por alimentos alternativos. A soja, o tofu e o seitan, bem como os ovos e o queijo, podem fornecer as proteínas que precisam. É evidente que as proteínas de origem animal têm maior valor biológico porque contêm os aminoácidos nas proporções adequadas às nossas necessidades. Digamos que o nosso corpo tem mais facilidade em produzir proteínas a partir das proteínas da carne, uma vez que são mais semelhantes às nossas. Isso explica-se por partilhamos a mesma origem animal. Mas a carne também tem aspetos menos desejados como a gordura, o colesterol, os aditivos, os conservantes, os antibióticos e outros medicamentos usados na indústria agropecuária... Não podemos dizer que para a criança seja exatamente o mesmo comer proteínas animais ou vegetais, mas é possível chegar ao mesmo resultado dando soja ou fazendo combinações com alimentos vegetais que se completam entre si.

P: Se a alimentação vegetariana for variada, não há motivo para recear carências. É isso?
R: Se a criança tiver uma alimentação vegetariana que inclua ovos, leite ou lacticínios não há motivo para preocupação! Terá certamente todos os nutrientes que necessita. Contudo, em situações em que a criança mantém um regime vegetariano puro, que exclui todos os produtos de origem animal, podem ocorrer carências, não tanto de proteínas, mas de outros nutrientes que sejam mais difíceis de obter em quantidade suficiente a partir dos alimentos vegetais, como é o caso das vitaminas D e B12, do ferro, cálcio e zinco. Numa dieta vegetariana pura é necessário mais atenção por parte dos pais, que devem escolher alimentos enriquecidos com estas vitaminas e minerais para compensar. Se assim for, pode até nem se justificar dar à criança um suplemento polivitamínico. Há alguns anos o risco de carências era muito maior, não havia tanta informação nem tanta variedade de alimentos. Hoje existem imensos cereais enriquecidos e vários tipos de leite de soja adaptados, próprios para bebés e crianças vegetarianas, que ajudam a colmatar essas carências.

P: Que recomendações deixa aos pais?
R: A primeira regra é variar, e isso é válido para qualquer tipo de alimentação. Se variarmos os alimentos, reduzimos ao mínimo a hipótese de ocorrerem deficiências. É também essencial que a alimentação seja equilibrada e ajustada à idade da criança. Os pais que optam pela dieta ovo-lacto-vegetariana podem estar descansados, mas os que seguem um regime vegetariano puro devem ter consciência que não podem descuidar-se: ou dão alimentos enriquecidos ou a criança tem que tomar um suplemento! As carências podem surgir em qualquer tipo dieta, mesmo que a criança tenha uma alimentação convencional. O mais importante são os bons hábitos que os pais transmitem aos filhos logo desde muito pequenos, é o exemplo dado no dia-a-dia.

P: Há crianças que começam a ser vegetarianas ainda «in útero».
R: A alimentação vegetariana pode ser mantida durante a gravidez, devidamente planeada e reforçada em nutrientes essenciais. Algumas mães perguntam-me se podem amamentar e se o leite é adequado para o bebé tendo em conta que são vegetarianas. Claro que o leite materno é a melhor opção, de resto, a alimentação dos bebés vegetarianos é idêntica à das outras crianças, com a diferença de se iniciar o tofu e a soja na sopa, entre os quatro e os seis meses, em vez da carne. O seitan, por ser feito à base de glúten, deve ser introduzido sempre depois dos seis meses, para evitar qualquer intolerância, aplicando-se em tudo as normas gerais da alimentação infantil.

P: Cabe aos pais, numa primeira fase, decidir a opção alimentar dos filhos. Mas à medida que crescem essa decisão deve ser tomada em conjunto?
R: Habitualmente essa questão coloca-se quando os filhos chegam à adolescência. Há crianças que sempre foram vegetarianas e nessa altura decidem mudar, mas também acontece o contrário, crianças e adolescentes que dizem aos pais que não querem comer mais carne nem peixe e tornam-se vegetarianas. Em qualquer das situações, o assunto tem que ser discutido em conjunto e deve ser aceite pelos pais. É sempre possível chegar a um consenso e encontrar soluções que permitam aos pais e aos filhos alguma tranquilidade à hora das refeições. Podem combinar, por exemplo, que o acompanhamento é igual para todos e muda-se só o alimento proteico, ou que em certos dias todos comem o mesmo prato.

P: Muitos pais lamentam a falta de apoio por parte dos técnicos de saúde e de educação. Encontra razão para tantos obstáculos?
R: Do ponto de vista médico, não há motivo para se impedir que as crianças sejam vegetarianas.  A resistência de alguns técnicos de saúde terá a ver com ideias erradas ou com a falta de informação. Compreendo melhor a reação das escolas já que pode implicar alterações em termos de logística. Mas se a escola ou a empresa que fornece as refeições à escola não tem capacidade para confecionar pratos vegetarianos, então tem que permitir que o aluno leve a comida de casa ou no mínimo o substituto proteico. Não faz sentido que a criança chegue à escola e deixe de poder dar continuidade à alimentação que os pais consideram ser a melhor para ela. A coerência é um valor essencial, que está constantemente a ser minado!

P: Obrigar a criança a comer carne pode ser um fator de stress...
R: Sem dúvida e isso é que não é nada saudável. O que se passa é que muitas vezes as pessoas olham para a opção vegetariana como se fosse um capricho e não compreendem que se trata de uma opção de vida, que deve ser respeitada. Dizer “o meu filho é vegetariano” não é a mesma coisa que dizer “ele não gosta de sopa” mas confundem-se as situações. Uma declaração médica poderá ajudar a clarificar estas situações e a partir daí as coisas tornam-se mais fáceis.

P: As escolas podiam beneficiar se também incluíssem refeições vegetarianas nas suas ementas?
R: Seria uma boa arma de marketing! Era uma mais valia para a escola e para as crianças que se habituavam a novos alimentos e a não ter tanta resistência e intolerância face ao que é novo e diferente.
 
*Entrevista integrada na reportagem “Vegetarianos de Palmo e Meio”, publicada na revista Notícias Magazine a 28 de Outubro de 2007

 



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