2as Sem Carne

Vegan? Com todo o prazer!

Vegan? Com todo o prazer!

Entrevista ao semanário SOL, 1 Nov 2012, por Gabriela Oliveira
Nunca comem carne, peixe ou alimentos com ingredientes de origem animal. Recusam-se a usar lãs e acessórios em pele. Quem são os vegans portugueses e o que os move? O percurso, os motivos e as estratégias de seis vegetarianos puros, ainda antes do Dia Mundial do veganismo, que hoje se comemora.

A decisão gera sempre controvérsia. Quando alguém em casa anuncia que vai deixar de comer carne, peixe e todos os produtos que contenham ovos ou lacticínios, o efeito pode assemelhar-se a uma ‘catástrofe’ familiar. «Vais comer o quê?». «Não podes alimentar-te só assim!». «Já não queres a minha comida?». Receios e desabafos típicos de quem se depara com a determinação dos filhos ou do companheiro de se tornarem vegetarianos restritos, excluindo todos os produtos de origem animal da alimentação e do vestuário.

Entre vegans conhecidos, estão nomes como os músicos Moby e Bryan Adams, a atriz Pamela Anderson ou o atleta Carl Lewis. O veganismo está a aumentar no nosso país, à semelhança do que se passa na Europa, nos EUA ou no Brasil. «Há mais informação, as pessoas estão mais atentas e quando algo nos toca, mudamos mesmo», comenta Nuno Metello, um dos activistas portugueses para a mudança alimentar.

Que motivos podem levar a esta escolha, que deixa de fora tantos alimentos, como os vulgares bolos de pastelaria, e exige estar atento a rótulos e etiquetas? A mudança tem quase sempre a ver com razões de ordem ética, ecológica e de saúde. A forma como os animais são produzidos, tratados e abatidos está longe da preocupação da maioria das pessoas mas incomoda quem tem interesse em saber de onde vem a comida e que impacto provoca.

São conhecidos os efeitos nocivos do consumo excessivo de carne e de gorduras animais para a saúde, mas outras consequências têm sido debatidas, sobretudo ligadas à poluição e degradação ambiental. A produção intensiva de carne é apontada pela Organização das Nações Unidas como «um dos factores que mais contribuem para os mais sérios problemas ambientais» e é responsável por 18% das emissões de gases com efeito de estufa, mais 40% do que todo o sector dos transportes. Números detalhados no relatório Livestock’s Long Shadow, que os vegetarianos levam muito a sério.

Do teatro à doçaria
Maria Oliveira Dias desafia quem não acredita que os bolos podem ser feitos sem ovos, sem leite, sem açúcar e sem gordura, a provar os seus! «Os meus bolos não têm nada disso, nem uso corantes sintéticos», diz a autora do blogue The Love Food, enquanto coloca sobre a bancada vários cupcakes e um vistoso bolo com recheio e cobertura de cacau. Vegan e gulosa assumida, como não encontrava à venda os bolos de que gostava, resolveu dedicar-se à culinária e reinventar receitas que deixaram os amigos de água na boca.

«Criei o blogue para reunir informação sobre o vegetarianismo, mas que não fosse chocante porque isso sempre me causou angústia quando fazia pesquisas na net». Tem partilhado muitas receitas, conselhos e sugestões de moda, e acabou por fazer um menu de encomendas para dar resposta aos pedidos que iam surgindo. Os bolos «vegan, light e saudáveis», como gosta de frisar, são procurados, sobretudo, por pessoas diabéticas e crianças alérgicas. Mas já teve um desafio bem maior, que foi preparar um bolo de casamento e as sobremesas para uma boda inteiramente vegan.

Maria é vegetariana desde a adolescência e vegan há cinco anos. «Nunca consegui fazer a dissociação entre a carne e o animal. Quando era criança adorava sopa e fruta e se me dessem alguma coisa com nervos, ossos, espinhas ou sangue, era incapaz de mastigar e desatava a chorar. Não queria que os animais morressem», conta. Aos 13 anos comunicou à família a «catástrofe» e, depois de passar vários meses a tirar a carne e o peixe do prato, para dar ao cão debaixo da mesa, os pais renderam-se à ‘teimosia’ da filha e passaram a preparar-lhe refeições vegetarianas. Hoje é a cozinheira da família nos dias de festa. «Fecho-me na cozinha e preparo-lhes uma jantarada vegan, não têm outra escolha», admite entre risos.

Tirou o curso de teatro em Paris, mas o gosto pela pastelaria e a recente paixão pela horticultura estão a roubar-lhe o tempo para o palco. «Não há nada como comer as frutas e os legumes acabados de colher. Se pudesse, cultivava até os cereais para fazer a farinha para os bolos», conta, desvelando alguns truques da agricultura biológica. Vai todas as semanas à quinta da família em Viseu, para tratar das sementeiras e das colheitas, que lhe deixam rasto nas mãos delicadas. «Adoro trabalhar a terra, é duro mas é um relaxe toda aquela paz, rodeada dos meus cães».

Decisão de peso
Quem a vê, de cabelos longos e pulseiras nos braços, não a imagina a levantar halteres. Menos ainda que é campeã nacional de halterofilismo, na categoria de 63 quilos. Filipa Antunes, aos 25 anos, contraria o protótipo de um atleta de alta competição nesta modalidade: «As pessoas pensam que para se ter força é preciso comer muita carne e muitos ovos e ficam espantadas quando percebem que sou vegetariana».

Um desporto de força, como este, «não masculiniza ninguém», nem obriga a que se encha a barriga de bifes. Aliás, carne é coisa em que ela não toca desde os 13 anos. Quando entrou na universidade para estudar Comunicação Social tornou-se vegetariana e daí ao veganismo foi um passo: «Deixei de comer ovos e laticínios quando me apercebi do que isso implicava».

«Só te falta um bifinho para conseguires», provocam às vezes os colegas durante os treinos. Como é norma na modalidade, toma suplementos para compensar o desgaste de três horas de treino diário. Mas em vez de recorrer aos reforços proteicos à base de leite opta por um suplemento de proteína de ervilha. De resto, para reforçar a ingestão proteica, prepara muitas refeições com leguminosas, manteiga de amendoim, tofu, seitan ou soja texturizada.

Filipa, que até se considerava «uma pessoa preguiçosa para o desporto», descobriu o halterofilismo quando se inscreveu num ginásio para fazer exercício, num ano de interregno dos estudos. Agora está a completar o doutoramento em filmologia, em Norwich, Inglaterra, e vem a Portugal sempre que há competições, porque não pode competir no Reino Unido.

É difícil ser vegan? Nem por isso, considera Filipa. Em Inglaterra até a tarefa de ler os rótulos é facilitada porque muitos produtos ostentam a marca suitable for vegans, para além de quase todos os restaurantes terem menus com opções vegetarianas. Acredita que no futuro a indústria alimentar irá responder à maior consciência e exigência dos consumidores: «É uma decisão para a vida. Preocupa-me o sofrimento dos animais mas também as questões ambientais e a saúde».

Empreendedorismo vegan
Farta de calçar sapatos sem graça e sem qualidade e de andar à procurar de alternativas elegantes que não tivessem pele de animais, Paula Pérez criou a marca de calçado que gostava de ter encontrado: NAE, abreviatura de No Animal Exploitation. «Foi por uma necessidade própria, associada à lacuna que existia no mercado e à mudança cada vez maior da consciência social, que se está a verificar, sobretudo, no Norte da Europa», explica com entusiasmo, ao final de mais um dia de ‘correria’.

Paula é gestora de informação numa das maiores empresas de telecomunicações do país mas quando avançou para o negócio do calçado vegan, em 2008, ocupava o cargo de analista e ainda não lidava ??directamente com o mundo empresarial. Sentiu a latejar a sua «veia empreendedora» e, com a ajuda do marido, que é informático, voltou-se para uma das área de excelência da indústria portuguesa. «Recorremos a materiais como a cortiça, fibras naturais e peles sintéticas». A produção é assegurada por diferentes fábricas no Norte do país.

São muitos os serões em que fica a dar andamento a encomendas para lojas em quase todos os pontos do mundo, com várias colecções a decorrer em simultâneo, porque se na Europa é Inverno, na Austrália ou no Brasil é Verão. Alemanha, Holanda Itália e Austrália estão no topo da lista dos maiores clientes. Já teve alguns pedidos curiosos, como umas sandálias em cortiça bordada a algodão para uma noiva em Itália. «Há uma procura crescente, não só pela questão da exploração animal, mas também por motivos ecológicos. A indústria das peles e dos curtumes é muito poluente».

Em muitos contextos profissionais, Paula Pérez prefere nem mencionar que é vegan: «Se disser que me contento com uma saladinha as pessoas aceitam porque sou mulher. Já um homem não é bem assim». Deixou de comer carne há 11 anos e desde há cinco que é vegan. «Sinto o maior respeito pelos animais, não consigo comer nada que lhes pertença nem usar algo que resulte da sua exploração», justifica. Em casa as filhas e o marido já aderiram às refeições vegetarianas e até o gato e os dois cães, que foram resgatados da rua, comem rações à base de soja. «Carne não entra nesta casa».

A arte do ativismo
Foi um vídeo na internet, há sete anos, que despoletou a mudança de Nuno Metello. Deparou-se com imagens arrepiantes de cães esfolados para a indústria do pêlo e não conseguiu parar de pesquisar. As pistas levaram-no ao documentário Meet your Meat, a gota de água para deixar de comer carne e peixe. «Recebi em casa um Kit Vegetariano enviado pela organização internacional PETA, com indicações de como fazer a transição».

Mas Nuno estava habituado a que a mãe pusesse a comida na mesa e a decisão não foi fácil de pôr em prática. Muniu-se de argumentos para acalmar os receios da família e três meses depois, nem ovos ou queijo comia. «Agora reconhecem que é mais saudável e vão aderindo a muitos alimentos que antes nunca tínhamos se quer provado».

Saudades do queijo teve, mas da carne não. Já não era apreciador e alguns alimentos com sabores fortes, como os enchidos, só aprendeu a gostar na versão vegetariana. «Há cada vez mais produtos e a preços acessíveis. Já não é difícil ser vegan», admite o ilustrador de 29 anos que dedica parte do seu tempo ao activismo em defesa da mudança alimentar no grupo Segundas Sem Carne. Um movimento internacional, apoiado por várias figuras públicas, que sugere que se deixe de comer carne, pelo menos, uma vez por semana.

O interesse foi tal que Nuno tem pesquisado sobre as origens do vegetarianismo no mundo e reunido muitos livros e documentos que mostram que em Portugal a primeira associação vegetariana foi fundada há mais de um século. «É curioso que já em 1909 o salão nobre do Ateneu Comercial do Porto enchia para ouvir o escritor Jaime de Magalhães Lima falar de vegetarianismo. Como ele dizia: ‘Tem os seus pergaminhos, não é uma doutrina nascida de ontem’». E os argumentos usados nessa altura não eram muito diferentes dos de hoje.

«O planeta entraria em colapso se todos reivindicassem comer carne e peixe diariamente como os ocidentais», lembra Nuno. O planeta não teria capacidade para produzir cereais para alimentar tantos animais nem para superar a poluição. Gastam-se entre 13 a 15 quilos de cereais e leguminosas, e quinze mil litros de água potável, para produzir apenas um quilo de carne de vaca, quando esses mesmos recursos «podiam ser directamente usados na alimentação e no combate à fome no mundo», referem vários relatórios das Nações Unidas.

Bloguer sem fronteiras
Se já procurou receitas vegetarianas e vegans na net, é muito provável que tenha ido parar a uma das muitas páginas organizadas por Maria de Lourdes Carapelho. Sozinha e a partir de casa, a ex-professora de Inglês do ensino secundário mantém activos vinte blogues e meia dezena de páginas no Facebook. Nem todas são dedicadas à alimentação e aos direitos dos animais, mas a maioria tem subjacente esse objectivo e conquista milhares de visualizações.

Um acidente obrigou-a a reformar-se e sobrou-lhe tempo para ficar em frente ao computador. «Às vezes fico de boca aberta quando vejo as estatísticas do Facebook», diz Lourdinhas, o nome pelo qual gosta de ser tratada. A página com mais sucesso é a das Receitas Vegetarianas/Veganas que em pouco tempo alcançou nove mil ‘Likes’ e chega a mais de vinte e cinco mil pessoas por semana.

De quase tudo consegue-se uma boa receita! «Até das cascas de banana se faz uma óptima sobremesa ou das sobras das ervilhas uns hambúrgueres para o jantar», garante. A cozinha vegetariana não é cara, nem tem que ser complicada. Para destrinçar essa ideia e reunir num só local todas as receitas vegetarianas que ia encontrando na net, criou, em 2007, o blogue Universo dos Alimentos. Tem para cima de três mil receitas doces e salgadas, onde se pode aprender a fazer omeleta sem ovos, leite de nozes ou até seitan caseiro. Tudo em português, porque uma das principais fontes de inspiração é o Brasil.

Quando ainda ninguém sonhava com o facebook, já Lourdinhas andava nos chats do mIRK e do Orkut a trocar ideias. «Quase não havia informação sobre vegetarianismo nessa altura». Foi há 20 anos que mudou para o regime vegetariano e, desde há 11, é assumidamente vegan: «Custou-me imenso deixar o queijo. Era queijo-dependente, comia a todas as refeições. Agora nem me lembro dele». O leite de soja e os ‘queijos vegetais’ que prepara em casa, ocuparam o lugar dos lacticínios.

O que a fez mudar? Um conjunto de argumentos, que não se cansa de repetir: «Em primeiro lugar, não é suposto bebermos leite depois do desmame. Somos os únicos seres que continuam a beber leite e, ainda por cima, de outra espécie. A questão do cálcio é um mito, porque existem outros alimentos que fornecem mais cálcio e com menos gorduras». Outras razões de peso são as enzimas presentes no leite que são indigestas «e que estão na origem de alergias e problemas respiratórios, para além dos vestígios das hormonas e fármacos que são aplicados nas vacas leiteiras». Há ainda uma questão ética que pesou na sua decisão: «A vida a que estão sujeitas. As vacas são como as mulheres, só dão leite se estiverem grávidas, por isso são continuamente engravidadas».

Podia ser pequena, em idade e estatura, mas Maria de Lourdes sempre foi destemida na defesa dos animais. Em criança era «o terror da vizinhança» porque onde visse animais presos ela encarregava-se de os libertar. Abria as portas dos galinheiros, coelheiras, pocilgas e pombais, na esperança de que os animais fugissem e escapassem à faca. Ficava angustiada com os gritos estridentes da matança ? dos porcos e de lágrimas nos olhos quando era obrigada a comer a carne que se «enrolava na boca», no restaurante dos pais, e que tentava esconder no guardanapo. Hoje tem o neto como aliado, e muitos dos fãs das suas páginas.

Nem melhor nem pior
Em cada ano lectivo, o assunto vem à baila. É quase impossível evitar a curiosidade dos alunos e dos colegas quando se apercebem que Orlando Figueiredo é vegetariano. «Os meus alunos perguntam-me muito o porquê da minha escolha? E alguns já tentaram mudar, com algumas discussões em casa», conta o professor de Física e Química, 45 anos, agora em pausa do serviço docente para concluir o doutoramento.

Na cozinha nunca se atrapalha. Gosta de cozinhar e leva muitas vezes a comida de casa para a escola, por ser mais prático. Chegou até, no período de exames, a preparar na cantina um almoço colectivo vegetariano. A ideia agradou tanto, que a própria escola instituiu que uma vez por semana a cantina tivesse refeições vegetarianas para os alunos e professores.

Segue o regime vegan desde há um ano e meio: «Sinto-me melhor porque tinha tendência para abusar dos queijos e iogurtes», reconhece Orlando. Em 2001 deixou de comer carne e peixe mas confessa que às vezes comia o que lhe punham à frente «porque estava cansado da reação das pessoas e de ter de estar sempre a justificar porque é que não comia animais», mesmo quando nem tocava no assunto.

Às vezes não é fácil! As pessoas irritam-se por ele não partilhar da mesma refeição e tomam a decisão como «uma afronta ou uma declaração de superioridade moral, quando não é nada disso!». Orlando esclarece: «Ser vegan não faz de mim uma boa pessoa, não sou melhor nem pior do que os outros apenas por isso. Pode ser eticamente louvável ter um comportamento que protege a vida dos animais, tal como há muitos outros gestos, de solidariedade, que o são também».

Ainda reina a visão antropocêntrica no mundo. «A indiferença face aos animais e ao ambiente tem a ver com a noção de que o Homem, por ter intelecto, está acima de tudo e todas as espécies, o que não é verdade. Somos apenas um entre pares, uma parte do todo».

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