2as Sem Carne

Paulo Borges

Paulo Borges . Presidente da Direcção Nacional do PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza

 

P: A Campanha das 2ªs Sem Carne é uma iniciativa do PAN. Explique um pouco como está relacionado este movimento com as causas que o PAN defende?

R: Este movimento tem tudo a ver com as 3 grandes causas do PAN - animal, humanitária e ecológica - , que no fundo são uma só. Basta pensar no indescritível sofrimento dos animais nas unidades de pecuária intensiva, autênticos campos de concentração e tortura física e psicológica, onde são engordados à pressa uns em cima dos outros, fora dos seus habitats naturais, com luz artificial, alguns sem se poderem mexer, a morderem-se uns aos outros (esta é sem dúvida a pior das violências que o homem exerce sobre os animais). Basta pensar na sua carne cheia de toxinas, antibióticos e hormonas que nos envenena, num autêntico atentado à saúde pública (segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados advêm do consumo de carne). Basta pensar que o investimento na produção industrial de carne (e peixe) é um mau negócio, tem um terrível impacte ecológico e contribui para a fome no mundo. Todos os cereais e leguminosas produzidos em todo o planeta para alimentar animais para consumo humano poderiam nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, um terço da população mundial e o dobro dos quase 1 000 milhões que padecem de fome. Além disso, a produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir um carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/leguminosas e 15 000 litros de água potável, o bem cuja crescente escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos conflitos bélicos (ler artigo). A pecuária intensiva é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o metano, emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido de carbono; 70% do solo arável mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflorestação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar (cf. um relatório de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock's Long Shadow: environmental issues and options).

Reduzir o consumo de carne é reduzir o sofrimento de homens e animais e contribuir para a preservação do planeta. Consumir carne só interessa às multinacionais da pecuária intensiva e da indústria farmacêutica, que obtêm lucros astronómicos com o sofrimento, a doença e a morte de animais e homens.

 

P: Considera que a redução do consumo de carne é uma medida urgente?

R: Urgentíssima, por todas as razões apresentadas. É aliás a própria ONU que insiste na urgência de se caminhar para uma dieta sem carne nem lacticínios, pois é a única que pode alimentar de forma sustentável uma população mundial que deve atingir os 9.1 biliões em 2050 (cf. um relatório de 2006 da Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock's Long Shadow: environmental issues and options; veja-se também o artigo: UN urges global move to meat and dairy-free diet). O obstáculo, além da desinformação da opinião pública, advém das referidas multinacionais e do poder político que as serve, bem como de preconceitos antiquados de médicos e nutricionistas.

 

P: Sei que é vegetariano há alguns anos. Desde então como tem estado de saúde? Sentiu diferenças positivas?

R: Antes mesmo de me tornar vegetariano, deixei de beber leite de origem animal há cerca de 30 anos e reduziram-se imenso os frequentes problemas digestivos e respiratórios que tinha. Depois abandonei o consumo de carne e, à medida que me encaminhava para uma dieta vegetariana, a minha saúde foi melhorando cada vez mais, acontecendo o mesmo com a clareza mental e a sensibilidade. Trabalho hoje muito mais e canso-me muito menos do que quando era carnívoro. Há muitos anos que raramente vou ao médico e praticamente não tomo medicamentos (quando necessário, opto em geral pelas medicinas alternativas, no meu caso a medicina tibetana). O mesmo acontece com os meus filhos, que hoje são praticamente veganos.

 

P: Imagino que, sendo presidente da Direcção Nacional do Partido pelos Animais e pela Natureza, se tenha interessado em ver alguns dos vídeos chocantes sobre as condições dos animais na indústria da pecuária intensiva. Que nos pode dizer sobre este assunto?

R: Que é uma experiência dura, mas fundamental para tomarmos consciência do horror de que somos cúmplices ao comermos carne (e peixe). Temos de ter a coragem de ver esses filmes, para vermos o tremendo, injusto e inaceitável sofrimento e violência ocultos em que assentam as nossas vidas de pessoas ditas normais, civilizadas e pacíficas. Aconselho o Earthlings - http://www.earthlings.com/ - , que colocou de um momento para o outro os meus filhos na senda do vegetarianismo e do veganismo e que, no mínimo, tem levado imensas pessoas a reduzir o seu consumo de animais. Quem quiser um pequeno documentário mais conciso, pode ver também Farm to Fridge: http://youtu.be/THIODWTqx5E. Aconselho ainda a eloquente palestra de Gary Yourofsky: http://youtu.be/8bH-doHSY_o

 

P: O número de pessoas vegetarianas continua a aumentar. Acha que esta mudança de atitude em relação à alimentação também está relacionada com uma mudança de mentalidades?

R: Sem dúvida! Embora existam pessoas que, compreensivelmente, começam a reduzir o consumo de carne ou a tornar-se vegetarianas por estarem preocupadas com a sua saúde e estética, um número crescente faz essa opção por motivos éticos, tomando consciência de que não é justo comer animais nem contribuir para a destruição do planeta, além de não ser absolutamente necessário, pois dispomos de imensas alternativas à carne e ao peixe e ainda mais saborosas, se usarmos os temperos adequados. No fundo ninguém gosta do sabor da carne ou do peixe, mas sobretudo dos temperos… E a alimentação vegetariana ou vegana não é necessariamente mais cara: há que acabar com esse mito. No mínimo, já seria bom reduzirmos o consumo de carne para os níveis dos nossos avós e bisavós. Foi só com a geração dos nossos pais que surgiu o mito absurdo de que comer carne todos os dias era sinónimo de estatuto e qualidade de vida!...

A mudança de mentalidades é fundamental para que o futuro seja possível no planeta Terra e, com ele, um mundo melhor para todos, humanos e não-humanos. É esse o caminho e por ele vão seguir cada vez mais consciências despertas. Contamos contigo, leitor!

 

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