2as Sem Carne

Entrevistas

Pegada no prato: as dietas ditadas por princípios ecológicos

Maria de Oliveira Dias tornou-se vegetariana aos 12 anos, altura em que descobriu que havia outras pessoas a partilhar das suas preocupações. Mas os pais não a levaram a sério: “Acharam que era uma mania e as refeições em casa não tiveram qualquer alteração. Vi-me obrigada a comer acompanhamentos durante um ano e a dar os bifes ao meu cão, sorrateiramente, por baixo da mesa”, recorda.

Hoje Maria faz do blog The Love Food uma montra de sabores irresistíveis, com mínimo impacto no planeta. Tornou-se vegana há cinco anos, abdicando do uso e consumo de qualquer produto ou alimento de origem animal, e dedica-se à gastronomia sustentável. Cada vez mais pessoas procuram as iguarias que prepara com amor, imaginação e (eco)consciência, em especial os bolos, 100% veganos.

“Quando se está informado não se pode fingir que se é ignorante; é preciso agir. E essa acção começa logo pelas nossas escolhas do dia-a-dia”. Para que não haja dúvidas, a blogger apaixonada por cozinha e animais cita duas fontes: “Um estudo da FAO (Food and Agriculture Organization das Nações Unidas) alertava para o facto de a pecuária intensiva gerar mais emissões de gases com efeitos de estufa do que todos os transportes do mundo, e um relatório da Union of Concerned Scientists para o facto de a pecuária usar 3/5 dos campos do mundo para produzir apenas 5% das proteínas consumidas em termos globais”.

Um dia sem carne

Foi em 2006 que a FAO divulgou o impacto ambiental do sector pecuário. Surpreendente para uns, legitimou o que um grupo minoritário defendia há vários anos. Porém, mais rapidamente apontamos o dedo ao carro poluente do que ao bife suculento. “Sabemos que o carro tem tubo de escape. É uma percepção mais directa”, justifica Orlando Figueiredo, um dos dinamizadores das 2.as Sem Carne e membro da direcção nacional do Partido pelos Animais e pela Natureza (PAN).

“Temos esperança, por um lado, que a tecnologia e a engenharia arranjem soluções menos poluentes para os transportes, e isso é mais difícil de fazer para a alimentação. Por outro lado, e na sociedade actual, é mais fácil, individualmente, fazer opções ecológicas na alimentação do que nos transportes: posso prescindir uma ou das vezes por semana de alguns produtos alimentares”, sugere.

É esse o mote do movimento 2.as Sem Carne, que chegou a Portugal há mais de um ano. “Não faz a apologia do veganismo; faz a apologia do menor consumo de carne”, diferencia Orlando Figueiredo. E convida até os ‘carnívoros’ mais fervorosos a optarem por refeições vegetarianas durante um dia da semana. O mote é ecológico, mas este movimento global, que surgiu em 2003 nos Estados Unidos, recupera uma iniciativa que vigorou na Grã-Bretanha durante a

II Guerra Mundial. Face ao racionamento de alimentos e à necessidade de envio de mantimentos para os soldados britânicos na linha da frente, a população abdicava do consumo de carne à 2.ª-feira.

Não faltam (bons) motivos para uma dieta mais rica em vegetais. “De forma geral ingerimos carne a mais”, defende a dietista Cláudia Viegas, docente na Escola de Hotelaria do Estoril. “Em média necessitamos de cerca de 100 gramas de carne ou peixe por refeição, e mesmo este valor é superior às necessidades reais”. Por isso, nunca é de mais recordar a tão badalada roda dos alimentos. “Se somarmos as percentagens dos grupos de origem animal, e assumindo que dividimos o grupo das gorduras em 1% para cada lado, então 24% da nossa alimentação deve ser de origem animal e os restantes 76% de origem vegetal”, aponta a dietista.

Diz-me o que comes

Desengane-se quem pensa que, sem carne e peixe, pouco mais comerá do que saladas. Há muitas alternativas, algumas com tradição na gastronomia portuguesa, como peixinhos da horta ou ervilhas com ovos escalfados. “A comida mediterrânica tem muitas coisas vegetarianas”, recorda Orlando Figueiredo. Os mais aventureiros podem dar asas à imaginação e preparar lasanha de legumes ou feijoada de soja. “As pessoas têm a ideia errada de que para ser vegano é preciso passar muito tempo na cozinha e isso é um mito”, garante a Maria de Oliveira Dias. Para ajudar os adeptos, o movimento 2.as Sem Carne apresenta todas as semanas uma nova receita no site www.2semcarne.com.

Do ponto de vista nutricional, “as necessidades de proteína são muito fáceis de atingir com quantidades relativamente baixas de carne”, garante a dietista Cláudia Viegas. É importante “conjugar fontes de proteína, como as leguminosas e os cereais, de forma a obter todos os aminoácidos essenciais”, explica. Numa dieta estritamente vegetariana “garantir uma fonte de vitamina B12, fontes de ácidos gordos essenciais, como os frutos secos ou as algas, verificar o aporte de cálcio e de ferro”, são cuidados a seguir.

Defensora de uma dieta sem carne, Cláudia Viegas advoga o consumo de peixe, fonte de ácidos gordos. “Existem dois ácidos gordos essenciais na nossa alimentação: o ácido gordo linoleico e o ácido gordo linolénico, a partir dos quais fazemos outros ácidos gordos muito importantes. Embora possamos ingerir alimentos de origem vegetal, como os frutos secos, que nos fornecem os ácidos gordos essenciais a partir dos quais fabricamos os segundos, a nossa capacidade de síntese é limitada, e o peixe fornece-nos esses ácidos gordos”.

Verdes prados?

Paisagens bucólicas de vaquinhas a pastar em montes verdejantes fazem parte do nosso imaginário, mas nem sempre correspondem à realidade. E mesmo que sejam reais, escondem a emissão de metano, gerado pelo sistema digestivo dos bovinos. Estima–se que uma vaca que produza 8 a 10 mil litros de leite por ano emita 500 a 700 litros de metano por dia, segundo o documentário Meat The Truth, produzido pelo Partido pelos Animais da Holanda. Em média, são necessários seis quilos de proteína vegetal para produzir apenas um quilo de proteína animal, e um hambúrguer de 150 gramas implica o gasto de 2.400 litros de água, de acordo com os autores do artigo Water footprints of nations: Water use by people as a function of their consumption pattern, A. Y. Hoekstra e A. K. Chapagain.

Orlando Figueiredo, do movimento 2.as Sem Carne, chama atenção para outra questão: o desperdício de energia. “Sabemos que entre dois níveis tróficos há uma perda de energia de 90%, isto de forma natural: entre o salmão que se alimenta da sardinha, 90% da energia da sardinha é desperdiçada no meio. Quando damos soja [em ração] à vaca e depois comemos a vaca, perdemos 90% de energia em cada nível trófico”. Em contrapartida, o pequeno gesto de deixar de comer carne durante um dia da semana tem grande impacto. Basta pensar que se todos os norte-americanos o fizessem, tal pouparia o equivalente às emissões geradas por 90 milhões de bilhetes de avião para a travessia Nova Iorque/Los Angeles.

Do fundo do mar

Porque não nos alimentamos apenas de carne, também os oceanos são vítimas de degradação e perda de biodiversidade. Segundo a WWF, desde 1950 a área de pesca por frotas globais aumentou dez vezes.

Hoje, 1/3 dos oceanos e 2/3 das plataformas continentais são exploradas pela pesca. Apenas as águas inacessíveis no Árctico e na Antárctida ainda se encontram relativamente intocadas. Em 2011 foram recolhidas 154 milhões de toneladas de peixe, das quais 130,8 milhões de toneladas para consumo humano, de acordo com o estudo da FAO The State of World Fisheries and Aquaculture – 2012. E a tendência é de crescimento: estima-se que entre captura e aquacultura serão apanhadas 172 milhões de toneladas de peixe em 2021, ultrapassando o consumo de carne de vaca, porco ou aves.

A sobrepesca já é uma realidade, afectando diversas espécies, como o bacalhau, tão apreciado pelos portugueses. Aliás, somos dos povos com maior consumo de peixe per capita do mundo: 57 kg por ano. Em 2007 a ONG ambiental Greenpeace analisou o mercado de peixe no nosso país e concluiu que nenhuma das grandes cadeias de distribuição alimentar seguia uma política de compra e venda de pescado. Três anos depois a situação melhorou, com quatro dos seis retalhistas do ranking da Greenpeace a seguir uma política responsável. O Lidl, de forma pioneira, adoptou novos cuidados na rotulagem e a Sonae lançou a etiqueta com certificado de compra em lota para o peixe fresco local, em parceria com a Docapesca. Já no ano passado, a política sustentável de pescado do grupo de Belmiro de Azevedo foi distinguida com uma menção honrosa nos Green Project Awards. Para que também os consumidores façam a sua parte, a ONG ambiental lançou em 2008 a lista das espécies ameaçadas que inclui, entre outras, diferentes tipos de atuns, espadarte, peixe-espada branco e alabote.

Na agricultura, que também não é inócua para o ambiente, há três princípios que facilitam escolhas mais ‘verdes’: produtos da época, locais e de origem biológica. O relatório das Nações Unidas Agro-Ecology and the Right to Food, publicado em 2011, demonstra a importância da agricultura de pequena escala, assente em métodos de produção ecológicos: no período de dez anos, e nas regiões mais críticas, permite duplicar os níveis de produção. No entanto, a alimentação deixará sempre pegada no planeta. A boa notícia? As nossas escolhas ditam o seu tamanho.

 

Dietas para todos

Na hora de sentar à mesa para comer, é possível seguir vários regimes alimentares.

Omnívoro

Trata-se da dieta mais comum no mundo, tida como a convencional. Às refeições são consumidas plantas e animais.

Vegetariano

Na alimentação vegetariana não entra qualquer tipo de carne: mamíferos, aves, moluscos, crustáceos, peixes…. São apenas consumidos produtos de origem vegetal, como fruta, legumes, leguminosas, frutos secos, etc. Normalmente, o primeiro passo para esta dieta passa pela adopção de um regime lacto-ovo-vegetariano, que não admite qualquer alimento ou produto que implique a morte de um animal, mas permite a ingestão de bens de origem animal como lacticínios (leite, queijo, iogurtes, manteiga) e ovos. Há mais duas variantes: lacto-vegeteriana (rejeita o consumo de ovos) e ovo-

-vegetariana (exclui lacticínios).

Vegano

Este regime é mais complexo e abrangente do que o vegetariano. Ser vegano é mais do que adoptar uma dieta específica, é adoptar uma filosofia de vida que recusa qualquer tipo de sofrimento animal, quer no sector alimentar, quer noutros, como vestuário, cosmética ou entretenimento. Assim, à hora das refeições são eliminados alimentos de origem animal, da carne ao peixe, do leite aos ovos, mas também o mel, por exemplo. Além disso, um vegano não usa perfumes, cremes ou qualquer outro artigo testado em animais, não tem peças de roupa em cabedal, seda ou lã, e opõe-se a touradas, circos, etc.

Crudívoro

Trata-se de uma dieta 100% crua, cujos alimentos são comidos crus ou submetidos a temperaturas até 40ºC. Motivo? Preservar as propriedades nutricionais dos alimentos. Este regime pode ser lacto-ovo-vegetariano, mas geralmente é vegano. Vegetais, em especial de folha verde, com os quais se pode fazer sumos, e sementes germinadas, linhaça, algas, amêndoas e nozes são alimentos muito consumidos.

Frutívoro

Frutas e frutos secos, crus ou cozinhados são os alimentos de uma dieta frutívora. Questões ambientais e éticas tendem a ditar a opção por este regime alimentar.

Macrobiótico

Pode ou não ser vegetariana, mas para os adeptos da dieta macrobiótica trata-se de um regime que respeita o ambiente porque acompanha os ritmos das estações, em conformidade com o clima e a área geográfica onde vivem. Cereais integrais, em especial arroz, vegetais e leguminosas são alimentos-chave; já as solanáceas, como tomate, pimento, batata e beringela, integram a lista dos “a excluir”. Para Francisco Varatojo, do Instituto Macrobiótico de Portugal, só se é macrobiótico a 100% quando se nutre um sentimento de pertença e gratidão pela vida.

 

Dieta sustentável

A WWF preparou cinco regras em nome de uma alimentação saudável para o organismo e para o planeta. Tome nota:

 

1 – Coma mais plantas

Desfrute de fruta e vegetais.

 

2 – Desperdice menos comida

33% dos alimentos plantados no mundo são desperdiçados.

 

3 – Ingira menos carne

Vermelha ou branca, a carne pode ser um complemento saboroso e não o centro

de uma refeição.

 

4 – Coma menos produtos processados

Geralmente implicam

um uso mais intensivo de recursos e costumam ter níveis mais elevados de açúcar, gordura e sal.

 

5 – Compre comida certificada

Privilegie alimentos que respeitam padrões credíveis

de qualidade e segurança.

 

Este artigo foi originalmente publicado na Recicla nº10. Pode ler todas as edições da Recicla no site da Sociedade Ponto Verde, em http://www.pontoverde.pt/

ou n site Green Savers

Manuela Gonzaga

Manuela Gonzaga . Escritora

P: Qual é o tipo de alimentação que a Manuela faz?
R: Desde há vários anos que a minha alimentação é muito vegetariana, embora com quebras e falhas. Ainda como peixe. Mas por exemplo, ovos, só de galinhas criadas ao ar livre, o que não é difícil porque até o minipreço já os vende, e tenho um supermercado biológico muito perto de casa. Além do mais, adoro genuinamente, legumes e leguminosas e é facílimo criar pratos excelentes com esta base.
 
P: O que a levou a aderir a esse tipo de alimentação?
R: É um longuíssimo processo. No final dos anos 70, estive muito próxima do regime macrobiótico. Em 75 eu e um namorado costumávamos até viajar com os tachos de barro nas mochilas, depois de termos queimado vários tachos de metal na casa das pessoas, com as nossas receitas muito puras que implicavam arroz integral queimado e fruta bichada. As minhas, as nossas motivações eram de natureza… metafísica. Acreditávamos que este processo de purificação orgânica nos levaria à purificação espiritual. Mas fui macrobiótica pouco tempo. Um dia, no fim de cozido à portuguesa em casa dos pais do meu namorado, durante o qual todos se banqueteavam enquanto nós mastigámos arroz sem graça nenhuma, dei por mim, na sala de jantar vazia, a encher a boca com rodelas de chouriço. Uma humilhação e uma grande derrota pessoal, quase chorei. Contudo, ficaram muitas sementes de conhecimento e atenção ao valor dos alimentos e à importância daquilo que se come.
 
P: A Manuela costuma frequentar restaurantes vegetarianos ou prefere fazer as suas refeições vegetarianas em casa?
R: Adoro alguns restaurantes vegetarianos que, de forma geral, são escolhas seguras. Mas onde se come bem, mas mesmo bem, é em minha casa). Cozinhar é um acto de partilha. Tudo é importante. O que usa e como se usa, e até o que se conversa durante uma refeição. Tem de haver alegria e gratidão. E ética. E amor, amor, amor.
 
P: Tem algum prato vegetariano preferido que queira partilhar connosco?
R: Fiz recentemente um caril de lentilhas, que todos comeram e choraram por mais. E ontem, cozinhei uma feijoada de seitan fumado, que estava divinal.
 
P: Está ciente dos problemas que o consumo exagerado de carne causa no Planeta?
R: Absolutamente. Foi esse, aliás, o grande motor de «contágio» por esta prática, cá em casa. A informação está toda aí, no Youtube e noutras redes, e só não vê e não sabe, quem não quer ver nem saber. Por exemplo, o problema do peixe, que adoro, é a contaminação dos oceanos. Ou as condições medonhas onde são criados – como por exemplo no delta de rios tóxicos, como o Mekon, no Vietname, de onde vêm aqueles filetes de peixe muito branquinho e totalmente nojento. A taxa de metais pesados é tão elevada, que é preferível não abusarmos do consumo, embora ainda se possa comer bom peixe apanhado no Atlântico, muito dele na costa portuguesa. Quanto à carne, a forma intensiva como é criada, destruindo habitats e florestas, e roubando toda a água potável disponível numa certa região... trata-se pura e simplesmente do maior crime ambiental que está a ser cometido em nome do apetite desenfreado e irracional de certas populações. Acresce que o corpo o humano não foi desenhado para metabolizar tanta proteína e isso vê-se no estado de saúde das pessoas, em termos estatísticos.
 
P: Recentemente os cientistas disseram que os animais têm consciência tal como os seres humanos . Pensa que este tipo de percepção acerca dos animais contribui para uma maior abertura das pessoas em relação ao vegetarianismo?
R: Eu gostava de responder pela afirmativa, mas não tenho a certeza de que, em termos estatístico, isso pese muito. Pessoalmente, foi essa tomada de consciência que determinou a minha opção gradual pela alimentação vegetariana. Mas nunca a impus aos filhos. Para outras pessoas pode ser mais decisiva a importância negativa e fatal da produção industrial de carne, à escala do planeta. Já o meu marido, ao fim de várias horas a visualizar programas de informação nessa área, ficou tão horrorizado que decidiu tornar-se vegetariano. Neste campo do acordar de consciências, porque é disso que se trata, lembro-me sempre da resposta do mestre ao discípulo que estava muito ansioso para conseguir a receita de ser vegetariano: «és capaz de comer o teu cão?», e ele enojado: «agrhhh mestre, nunca!», pronto, respondeu o sábio, «quando sentires isso por todos os animais és vegetariano». Comigo foi mais ou menos assim. Deixei de comer porco há muitos anos, quando soube que a sua inteligência e sensibilidade era enorme. Por esse motivo, nunca fui capaz de comer carne de cavalo, e há anos havia aqui um talho no Bairro Alto muito frequentado. Só de passar à porta me fazia impressão. Coelho… não sou capaz, faz-me pena. Passarinhos, coitadinhos, fazem-me muito impressão… vaca, até parece que vejo os olhos delas a olhar para mim, quando passo pelo campo, e elas estão ali todas tranquilas a mastigar erva. Há anos que isso me impede de comer bife. Mas galinha ainda vai, de vez em quando. Enfim, não posso dizer que me tornei vegetariana a cem por cento nem sequer que isso acontece de um momento para o outro. Estou no caminho.
 
P: Pensa que estes assuntos relacionados com a alimentação (crueldade para com os animais, impacto no Planeta, etc.) deveriam ser mais divulgados pela população?
R: ABSOLUTAMENTE SIM!! Mas essa informação ainda colide muitíssimo com a grande indústria, que é totalmente dessensibilizada e acéfala. Só pela força dos números é que essa mesma indústria cosmética, alimentar, farmacêutica e outras irá corrigindo os seus targets e os seus vícios. Os números, logo as tendências, são determinados por nós: ao não comprar certos produtos em detrimento de outros, fazemos as regras e influenciamos os mercados. Logo tornamos mais visível e mais audível o nosso tipo de opções. E isso reflete-se igualmente sobre as correntes de opinião e sua visibilidade.
 
P: O que pensa deste movimento, das Segundas-feiras vegetarianas?
R: Quando era pequena, em nossa casa não se comia carne às sextas-feiras, porque a nossa educação católica assim o determinava. Não era sacrifício nenhum, pelo menos para mim que até preferia peixe. Agora, e por uma questão de equilíbrio ambiental ter-se começado um movimento destes, que já corre por inúmeros países, é incrível! De modo que, com todas as suas contradições, estamos a viver tempos esplendorosos. As revoluções começam sempre no interior de cada um. Gota a gota, convergimos num rio imparável. Adoro este movimento.

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''Comer carne faz mal para o ser humano e para o ecossistema''

Umberto Veronesi - Oncologista e Ex-ministro da saúde

''Comer carne faz mal para o ser humano e para o ecossistema''

O professor Umberto Veronesi, 87 anos, oncologista, ex-ministro da Saúde italiano, é vegetariano desde quando era jovem, "desde que eu pude escolher o que comer". Ao saber do estudo sueco, que pede que o mundo abandone as proteínas derivadas da carne, ele tem uma reação de contentamento. "Muito bom", diz ele.


A reportagem é de Corrado Zunino, publicada no jornal La Repubblica, 28-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Por que muito bom, professor?


Porque o consumo de carne é nocivo para a saúde humana e para a saúde do mundo.

Explique.

Se quisermos manter o equilíbrio do nosso planeta, devemos mudar os hábitos alimentaresLeonardo da Vinci eAlbert Einstein haviam entendido isso um pouco antes de mim. Os povos que hoje não comem carne, com o crescimento econômico, vão querer se alinhar à cultura ocidental. Se chineses, indianos e brasileiros começassem a se alimentar nos nossos níveis, o consumo global de carne passaria de 220 milhões de toneladas para 460 milhões. Precisamos de um número de animais de pasto superior ao de seres humanos, insustentável para o ecossistema. Desses 900 milhões de homens e mulheres desnutridos, lembremo-nos, 158 milhões são crianças. Não é justo desequilibrar assim o mundo para satisfazer um bilhão de carnívoros em excesso.

Os obesos da Europa e da América do Norte.

No Ocidente, já são evidentes todas as doenças do excesso de comida: obesidade, problemas cardiovasculares, diabetes. Na Itália, 52 mil pessoas morrem por ano de causas relacionadas ao excesso de alimentos.

O consumo de carne é correlato ao aumento de tumores?

São as estatísticas que dizem: onde se consume mais carne há mais casos de câncer de intestino, mas a questão central é ética, de sustentabilidade ambiental e humana. Não podemos mais usar metade dos cereais e três quartos da soja produzidos no mundo para sustentar o crescimento dos animais de pasto enquanto uma parte da humanidade morre de fome.

Professor, pode-se viver e crescer sem comer carne?

É claro. Na natureza há tudo do que se precisa.

Vale a todos, mesmo para os adolescentes?

O touro é o animal mais proteico que existe e é herbívoro. Eu não acho que os seus músculos sintam o efeito disso. A carne não é necessária. Na Índia, onde não se come por motivos religiosos, as crianças crescem bem e têm quocientes de inteligência altíssimos.

Portanto?

É preciso incentivar no Ocidente uma redução do consumo de carne e incentivar para que, no Segundo e no Terceiro Mundos, não se assimile o nosso modelo. A cadeia da carne é cara: são necessários 15 mil litros de água para produzir um quilo, e as criações bovinas produzem 18% das emissões de dióxido de carbono. Tiremos a carne da mesa ao menos uma vez por semana e salvaremos o mundo.

Fonte: http://migre.me/awomT

Inês Gil Forte . Nutricionista

Numa breve entrevista, efectuada pela jornalista Gabriela Oliveira, Inês Gil Forte dá-nos a sua opinião sobre a campanha segundas sem carne, faz algumas recomendações e ajuda a esclarecer dúvidas relacionadas com o consumo ou não de carne.

Abril 2012

 

P: Que recomendações deixa a quem pretender diminuir o consumo de carne e peixe?

R: Nos dias em que não consumir alimentos de origem animal, por forma a obter a quantidade de aminoácidos/proteína necessários poderá realizar combinações entre cereais e leguminosas extremamente ricas, como por exemplo:

  • Arroz com feijão
  • Sopa de ervilhas e uma fatia de pão
  • Caril de lentilhas e arroz

Ou leguminosas com sementes:

  • Grão e sementes de sésamo
  • Hummus com tostas de milho

 

P: A maioria dos portugueses exagera no consumo de carne e peixe?

R: Sim. Está enraizado na cultura portuguesa a ideia de que é necessário consumir uma elevada quantidade de carne ou peixe (usualmente ao almoço ou ao jantar) para que consiga obter uma quantidade adequada de proteína. Esta ideia é um enorme erro! Vários alimentos de origem vegetal têm uma excelente concentração de aminoácidos, por exemplo o feijão, as ervilhas, o grão, as lentilhas e, claro, a quinoa , um alimento muito completo nesta temática!

 

P: A dieta mediterrânica vai ainda mais longe do que a Campanha Segundas Sem carne. Segundo esta dieta, na maioria dos dias não se deve comer carne ou peixe?

R: Se seguirmos as recomendações da alimentação mediterrânica, tão valorizada, deveremos consumir carne branca ou peixe apenas duas vezes e ovos até 4 por semana. A carne vermelha deverá ser consumida menos de uma vez por mês. Assim, conseguimos evitar o desenvolvimento de várias doenças, hoje bastante comuns, como cancro, problemas cardiovasculares, doenças degenerativas... Por estes motivos, é fundamental consciencializarmo-nos de que devemos reduzir seriamente a quantidade de produtos de origem animal que consumimos, bem como o numero de vezes que o fazemos.

 

P: Que valor de proteínas é necessário ingerir por dia?

R: Está definido que 10 a 35% da nossa ingestão calórica diária deve ser obtida através das proteínas. Apesar de esta recomendação ser estabelecida para o consumo de proteína animal, hoje sabe-se que através da junção adequada de cereais com leguminosas conseguimos obter os valores adequados de proteína.

Se seguirmos as recomendações da OMS para o consumo de proteína, temos uma recomendação de 0,75 g/kg/dia para cada individuo. Ou seja, uma pessoa que pese 60 Kg, deverá ingerir cerca de 45 gramas de proteína por dia. É sempre importante referir que no caso das crianças, grávidas e lactantes o valor de referencia é mais elevado.

 

P: É possível ter uma alimentação completa seguindo uma dieta vegetariana?

R: Existem vários tipos de alimentação vegetariana, muitos deles incluem alguns alimentos de origem animal, como os ovos e os lacticínios. Mas mesmo quando não incluímos esses alimentos, podemos obter os aminoácidos necessários em alimentos como a quinoa, a soja ou as lentilhas. O grande nutriente em falta numa alimentação vegana é a vitamina B12, que não existe nas plantas, exceto na alga Nori. Esta vitamina pode ficar armazenada no fígado durante vários anos, no entanto, existem no mercado vários alimentos, como derivados de soja, que são suplementados com B12. Desta forma, em termos nutricionais, a alimentação vegetariana poderá ser completa. Desde que se varie e, claro, se tenha cuidado com a quantidade de gorduras utilizadas na confeção dos alimentos.

 

Paulo Oom

Paulo Oom . Pediatra

Entrevistado por Gabriela Oliveira*

P: A alimentação vegetariana é adequada na infância?
R: A dieta vegetariana pode ser iniciada logo nos primeiros meses de vida. Não há qualquer inconveniente para o crescimento e desenvolvimento das crianças, desde que sejam assegurados alguns cuidados.

P: Que vantagens encontra neste tipo de alimentação?
R: Tem vantagens e desvantagens como em qualquer regime alimentar. Habitualmente está associada a um maior consumo de fibras, frutas e legumes e a um menor consumo de gorduras e colesterol, o que reduz o risco das crianças desenvolverem doenças relacionadas com a alimentação, desde reações alérgicas, intoxicações alimentares, obesidade, doenças cardíacas, aterosclerose, hipertensão... Vários estudos têm mostrado que há também uma menor incidência de certos tipos de cancro entre os vegetarianos. Como grande parte dos pais que optam pela alimentação vegetariana têm preocupações ambientais e de saúde, os filhos acabam por adotar hábitos mais saudáveis, bebem menos bebidas gasificadas, comem menos açúcares, aditivos e conservantes. Mas a alimentação vegetariana só por si não é uma garantia de ser saudável ou mais saudável do que a alimentação convencional. É preciso que a alimentação seja variada e equilibrada e que os bons hábitos sejam mantidos. Não vale ser vegetariano e comer só doces e batatas fritas!

P: A carne e peixe podem deixar de ser encarados como alimentos «obrigatórios» no prato das crianças?
R: Sim, desde que se substituam por alimentos alternativos. A soja, o tofu e o seitan, bem como os ovos e o queijo, podem fornecer as proteínas que precisam. É evidente que as proteínas de origem animal têm maior valor biológico porque contêm os aminoácidos nas proporções adequadas às nossas necessidades. Digamos que o nosso corpo tem mais facilidade em produzir proteínas a partir das proteínas da carne, uma vez que são mais semelhantes às nossas. Isso explica-se por partilhamos a mesma origem animal. Mas a carne também tem aspetos menos desejados como a gordura, o colesterol, os aditivos, os conservantes, os antibióticos e outros medicamentos usados na indústria agropecuária... Não podemos dizer que para a criança seja exatamente o mesmo comer proteínas animais ou vegetais, mas é possível chegar ao mesmo resultado dando soja ou fazendo combinações com alimentos vegetais que se completam entre si.

P: Se a alimentação vegetariana for variada, não há motivo para recear carências. É isso?
R: Se a criança tiver uma alimentação vegetariana que inclua ovos, leite ou lacticínios não há motivo para preocupação! Terá certamente todos os nutrientes que necessita. Contudo, em situações em que a criança mantém um regime vegetariano puro, que exclui todos os produtos de origem animal, podem ocorrer carências, não tanto de proteínas, mas de outros nutrientes que sejam mais difíceis de obter em quantidade suficiente a partir dos alimentos vegetais, como é o caso das vitaminas D e B12, do ferro, cálcio e zinco. Numa dieta vegetariana pura é necessário mais atenção por parte dos pais, que devem escolher alimentos enriquecidos com estas vitaminas e minerais para compensar. Se assim for, pode até nem se justificar dar à criança um suplemento polivitamínico. Há alguns anos o risco de carências era muito maior, não havia tanta informação nem tanta variedade de alimentos. Hoje existem imensos cereais enriquecidos e vários tipos de leite de soja adaptados, próprios para bebés e crianças vegetarianas, que ajudam a colmatar essas carências.

P: Que recomendações deixa aos pais?
R: A primeira regra é variar, e isso é válido para qualquer tipo de alimentação. Se variarmos os alimentos, reduzimos ao mínimo a hipótese de ocorrerem deficiências. É também essencial que a alimentação seja equilibrada e ajustada à idade da criança. Os pais que optam pela dieta ovo-lacto-vegetariana podem estar descansados, mas os que seguem um regime vegetariano puro devem ter consciência que não podem descuidar-se: ou dão alimentos enriquecidos ou a criança tem que tomar um suplemento! As carências podem surgir em qualquer tipo dieta, mesmo que a criança tenha uma alimentação convencional. O mais importante são os bons hábitos que os pais transmitem aos filhos logo desde muito pequenos, é o exemplo dado no dia-a-dia.

P: Há crianças que começam a ser vegetarianas ainda «in útero».
R: A alimentação vegetariana pode ser mantida durante a gravidez, devidamente planeada e reforçada em nutrientes essenciais. Algumas mães perguntam-me se podem amamentar e se o leite é adequado para o bebé tendo em conta que são vegetarianas. Claro que o leite materno é a melhor opção, de resto, a alimentação dos bebés vegetarianos é idêntica à das outras crianças, com a diferença de se iniciar o tofu e a soja na sopa, entre os quatro e os seis meses, em vez da carne. O seitan, por ser feito à base de glúten, deve ser introduzido sempre depois dos seis meses, para evitar qualquer intolerância, aplicando-se em tudo as normas gerais da alimentação infantil.

P: Cabe aos pais, numa primeira fase, decidir a opção alimentar dos filhos. Mas à medida que crescem essa decisão deve ser tomada em conjunto?
R: Habitualmente essa questão coloca-se quando os filhos chegam à adolescência. Há crianças que sempre foram vegetarianas e nessa altura decidem mudar, mas também acontece o contrário, crianças e adolescentes que dizem aos pais que não querem comer mais carne nem peixe e tornam-se vegetarianas. Em qualquer das situações, o assunto tem que ser discutido em conjunto e deve ser aceite pelos pais. É sempre possível chegar a um consenso e encontrar soluções que permitam aos pais e aos filhos alguma tranquilidade à hora das refeições. Podem combinar, por exemplo, que o acompanhamento é igual para todos e muda-se só o alimento proteico, ou que em certos dias todos comem o mesmo prato.

P: Muitos pais lamentam a falta de apoio por parte dos técnicos de saúde e de educação. Encontra razão para tantos obstáculos?
R: Do ponto de vista médico, não há motivo para se impedir que as crianças sejam vegetarianas.  A resistência de alguns técnicos de saúde terá a ver com ideias erradas ou com a falta de informação. Compreendo melhor a reação das escolas já que pode implicar alterações em termos de logística. Mas se a escola ou a empresa que fornece as refeições à escola não tem capacidade para confecionar pratos vegetarianos, então tem que permitir que o aluno leve a comida de casa ou no mínimo o substituto proteico. Não faz sentido que a criança chegue à escola e deixe de poder dar continuidade à alimentação que os pais consideram ser a melhor para ela. A coerência é um valor essencial, que está constantemente a ser minado!

P: Obrigar a criança a comer carne pode ser um fator de stress...
R: Sem dúvida e isso é que não é nada saudável. O que se passa é que muitas vezes as pessoas olham para a opção vegetariana como se fosse um capricho e não compreendem que se trata de uma opção de vida, que deve ser respeitada. Dizer “o meu filho é vegetariano” não é a mesma coisa que dizer “ele não gosta de sopa” mas confundem-se as situações. Uma declaração médica poderá ajudar a clarificar estas situações e a partir daí as coisas tornam-se mais fáceis.

P: As escolas podiam beneficiar se também incluíssem refeições vegetarianas nas suas ementas?
R: Seria uma boa arma de marketing! Era uma mais valia para a escola e para as crianças que se habituavam a novos alimentos e a não ter tanta resistência e intolerância face ao que é novo e diferente.
 
*Entrevista integrada na reportagem “Vegetarianos de Palmo e Meio”, publicada na revista Notícias Magazine a 28 de Outubro de 2007

 



Gabriela Oliveira

Gabriela Oliviera. Jornalista

Numa breve entrevista, Gabriela Oliveira a propósito do lançamento do seu novo livro desvenda-nos algumas curiosidades sobre como começou  

Setembro 2014

 

P: Há quantos anos é vegetariana? 

R: Sou vegetariana há 17 anos, desde os tempos da universidade. Tornei-me vegetariana quando percebi que, afinal, era fácil substituir as proteínas por alimentos de origem vegetal. Sempre me custou ver os animais a morrer e a serem esquartejados para consumo e até essa altura desconhecia que existiam tantos alimentos alternativos.

 

P: Sendo jornalista, como se interessou pela culinária vegetariana? 

R: Precisamente pela minha curiosidade jornalística, pela vontade de pesquisar e de escutar os outros. O que pode levar alguém a decidir deixar de comer carne e a tornar-se vegetariano ou mesmo vegan? Como substituir os alimentos de forma a garantir as proteínas, o cálcio e o ferro? Podemos dar refeições vegetarianas a bebés? Escrevi imensos artigos e reportagens para a imprensa portuguesa sobre os temas da alimentação saudável e o vegetarianismo. Daí, parti para os livros. Não havia literatura sobre alimentação infantil vegetariana e, com o nascimento dos meus filhos, publiquei o livro “Alimentação Vegetariana Para Bebés e Crianças”. Recentemente publiquei “Cozinha Vegetariana Para Quem Quer Poupar”, para dar resposta a muitas dúvidas e pedidos de receitas que os leitores e os participantes nos workshops me faziam.

 

P: Nota que há um interesse maior pela cozinha vegetariana?

R: Sim, sem dúvida. Há muita curiosidade em experimentar pratos diferentes e em descobrir como se preparam alimentos novos, como a quinoa, o bulgur, o tofu, etc. Mas noto que as pessoas ainda têm dificuldade, porque não sabem onde adquirir esses produtos e desconhecem alguns truques básicos da culinária vegetariana. Por outro lado, há uma grande preocupação em adquirir hábitos mais saudáveis. Todos sabemos que a alimentação pode ter um efeito protetor ou, pelo contrário, potenciador de muitas doenças e que o consumo excessivo de carnes, gorduras e açúcares, está associado a vários tipos de cancro, hipertensão, obesidade e outros problemas.

 

P: Há a ideia de que as refeições vegetarianas são mais caras. Concorda?

R: Discordo. Podemos poupar bastante se optarmos por mais refeições vegetarianas, usando como fontes de proteínas as leguminosas (feijão, grão-de-bico, favas, lentilhas...), o tofu ou o seitan. O preço destes alimentos é bastante mais baixo do que o da carne ou do peixe. É curioso que muitos produtos típicos da cozinha vegetariana são mais baratos nas lojas especializadas do que nos hipermercados, chegando a custar o dobro do preço nas grandes superfícies, como é o caso do tofu e do seitan frescos. É possível preparar refeições completas para uma família inteira por escassos cêntimos ou até 5 euros, como proponho no livro.

 

P: Sabemos que os seus filhos são educados com uma alimentação vegetariana. Quais as vantagens e desvantagens que viu nessa opção durante o crescimento das crianças? 

R: Temos 3 filhos e foram habituados desde bebés a refeições sem carne que, aliás, nunca provaram. Não estranham ver no prato arroz integral, quinoa ou cuscuz com hambúrgueres de grão, “bifes” de seitan ou cogumelos... A grande vantagem é que as crianças adaptam-se a um leque maior de alimentos, desde as diferentes leguminosas, vegetais, frutos secos e sementes, e adquirem hábitos mais saudáveis, evitando os alimentos demasiado processados e açucarados. Contudo, durante a infância, seja qual for o regime alimentar seguido, é necessário manter uma alimentação completa, variada e equilibrada e ter vigilância médica. Infelizmente, muitos técnicos de saúde não dispõem de conhecimentos sobre alimentação vegetariana infantil, para poderem informar os pais.

 

P: Os seus filhos percebiam porque comiam diferente dos amiguinhos da escola? 

R: Sim, percebem e quando são questionados pelos colegas, explicam que não lhes agrada mesmo nada a ideia de ter no prato um pedaço de um animal que eles adoram... É curioso que o que mais intriga os meus filhos é o facto das outras crianças nunca terem provado refeições com tofu, seitan, salsichas vegetarianas... e quando provam, quase sempre, gostam! As ementas nas escolas tendem a ser pouco variadas, descoloridas e monótonas, com uma alternância entre carne, peixe e ovos, quando existem muitas opções saudáveis e económicas que podiam ser implementadas.

 

P: No novo livro “Cozinha Vegetariana para Quem Quer Poupar” propõe receitas 100% vegetarianas. A quem o aconselha?

R: A todas as pessoas que gostam de experimentar pratos diferentes, que procuram  melhorar a sua alimentação ou sigam uma dieta sem glúten, sem lactose ou vegetariana. O livro, para além das receitas de leites vegetais, sobremesas sem ovos, entradas e pratos principais, ensina a fazer em casa os alimentos típicos da cozinha vegetariana e apresenta quadros detalhados sobre os principais nutrientes dos alimentos. Quando idealizei o livro, pensei  num manual que fosse inspirador, de consulta fácil e útil em qualquer cozinha.

 

P: Que conselhos deixa a quem quer iniciar-se na cozinha vegetariana?

R: Que não tenha receio de provar alimentos novos e que crie o hábito de fazer refeições à base de leguminosas, que são muito ricas em proteínas e minerais, fáceis de preparar e económicas. As leguminosas quando são combinadas com cereais, de preferência integrais, fornecem proteínas completas com todos os aminoácidos essenciais. Encontramos essa tradição em quase todas as culturas: feijão com arroz (típico do Mediterrâneo), feijão com milho (América Latina), lentilhas com arroz (Índia), húmus com pão (Médio Oriente), etc. Os nossos avós e antepassados faziam esse tipo de alimentação. É uma boa solução para refeições rápidas vegetarianas.

 

P:  Já conhecia o projeto 2as Sem Carne? 

R: Sim, desde o início da sua formação. Tenho seguido o movimento Meatless Monday,  que tem feito um trabalho importante. É, de facto, urgente tomarmos consciência da necessidade de poupar os recursos do planeta, a vida dos animais e a nossa saúde, e agirmos!  


Gabriela Oliveira, 3 de Setembro de 2014

 

Website

Sandra Cóias . Atriz

P: O que o levou a optar pelo vegetarianismo?

R: Sendo uma pessoa que sempre gostou de animais, não compreendia como o ser humano era capaz de criar, e abater os animais da forma brutal como o continua a fazer, ao ter noção de que era possível viver sem os incluir na minha alimentação, foi uma decisão quase imediata.


P: Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar?

R: Desde pequena que em casa sempre se consumia mais peixe e legumes do que carne, sempre gostei de vegetais e de comida mais saudável, mas a mudança deu-se depois de assistir ao nascimento de um bezerro que foi alimentado a biberão.
 

P: Julga importante informar mais pessoas acerca da alternativa vegetariana? E porquê?

R: A informação é fundamental para tudo na vida.
Depois de adquirir conhecimento e de se tomar consciência da implicação das nossas escolhas, no que diz respeito à alimentação, para mim seria impensável não pensar nesse impacto cada vez que fosse às compras ou em cada refeição. Mas é preciso que as pessoas conheçam e saibam mais sobre esta alternativa, e os seus benefícios não só para a sua saúde como também para o ambiente, já para não falar na forma como usamos os animais na nossa alimentação. Só depois de possuirem conhecimento sobre esta alternativa, podem tomar uma decisão consciente.

 
P: Acha fácil encontrar restaurantes que tenham opções vegetarianas? Ou costuma cozinhar em casa?

R: Não acho difícil, existem cada vez mais restaurantes vegetarianos espalhados pelo país, mas eu prefiro cozinhar e comer em casa.


 
P: Qual o animal de quinta com quem mais simpatiza?

R: Com todos, não tenho preferência, não conseguiria escolher apenas um.


P: Acha que sabendo mais acerca da senciência dos animais e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação? E pensa que se as pessoas em geral estivessem mais informadas sobre este tema teriam mais receptividade em relação ao vegetarianismo?

R: Sinceramente, tudo depende da pessoa e da sua sensibilidade. A grande maioria, e tenho experiência, pois há anos que informo e alerto as pessoas com quem me tenho cruzado na vida sobre este tema, não quer abdicar do prazer de comer carne. Muitas gostam da "ideia", até gostam da comida vegetariana, percebem que é muito mais saudável, que é melhor para o ambiente, etc... mas falta o tal "click", e isso, é um caminho pessoal que cada um tem que percorrer.

 

P: Pensa que este tipo de iniciativa, ao apelar ao não consumo de carne um dia por semana, terá um impacto positivo?

R: Se todos aderissem a um dia sem carne por semana, que bom que seria!! Mas tudo começa com um simples passo, a pouco e pouco, e o passa palavra é importante, para que esse impacto seja cada vez maior.

http://www.imdb.com/name/nm0194716/

Yara Kono

yara kono . Ilustradora



P: Costuma fazer refeições vegetarianas?

R: Sim, com alguma frequência.

 
P: O que a motiva a fazer essa escolha?

R: Simplemente aprecio a culinária vegetariana. Tenho muitos amigos vegetarianos e daí experimentar (e gostar) foi um passo bem pequeno.


P: Prefere fazer as suas refeições vegetarianas em casa ou frequenta restaurantes?

R: Geralmente faço em casa, mas também frequento restaurantes.

 
P: Qual é o seu prato vegetariano preferido?

R: Difícil escolher entre tantos... talvez a beringela recheada.
Cuscuz, tofu (para salada), lentilha com legumes, salada de beterraba, batata doce assada e quinoa também estão entre os preferidos.


P: Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R: Acho que tudo que é consumido com exagero, acarreta um problema...


P: A maior parte das pessoas costuma adoptar cães e gatos. Como é ter adoptado uma galinha?

R: É um bichinho como qualquer outro. Precisa de carinho, comida, água e um cantinho para viver.
A Celeste vive no quintal do atelier. Ela foi rejeitada pelo galo e galinhas do puleiro onde vivia e o Bernardo (Carvalho) a trouxe cá para recuperar. Nunca mais regressou... já está habituada a nossa presença e é a rainha do quintal.

P: Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R: Não tenho um eleito... talvez as ovelhas e as galinhas, lógico.

P: Acha que sabendo mais acerca da senciência animal e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação?

R: Acho que para mim foi natural... simplesmente senti que o meu corpo pedia menos carne. Ainda consumo, mas muito menos.
E sim, faz-me confusão a maneira como os animais são tratados, durante a sua curta existência...

P: Pensa ser importante informar-se as pessoas acerca destes assuntos?
R: Acho que desmistificar a culinária vegetariana seria um bom começo. Muitos torcem o nariz só de ouvirem falar no assunto... e ao contrário do que parece é tudo muito saboroso (e colorido).


P: Acha que se não comer carne a sua saúde fica debilitada?

R: Depende, não necessariamente. Há pessoas que respondem bem a uma dieta vegetariana, mas outras não... tudo gira em torno do equilíbrio (e das necessidades de cada um).

https://www.facebook.com/yarakono

Vitor Rua


Vítor Rua . Músico 

P: Costuma fazer refeições vegetarianas com frequência?

R: Sim. Quase toda a minha alimentação neste momento é vegetariana.


P: Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar?

R: Sempre comi carne até aos 44 anos. A minha alimentação era 70% carne, 20% peixe e 10% vegetais. Depois conheci a minha companheira Ilda Teresa Castro e mudei a minha alimentação por completo. A razão foi de que me apercebi que não tinha o direito de 1. Comer animais que viveram toda uma vida de sofrimento 2. Não temos o direito de matar os animais (não precisamos disso para sobreviver nas nossas sociedades) 3. A minha consciência não o permite.


P: Prefere fazer as suas refeições vegetarianas em casa ou frequenta restaurantes?

R: Em casa. Os restaurantes vegetarianos ainda são poucos (embora tenham vindo a aumentar) e a qualidade ainda não é a melhor.


P: Quais são os pratos vegetarianos que mais aprecia?

R: Todo o tipo de arrozes, cenoura, batata no forno com alecrim, feijoada, bola vegetariana, tarte vegetariana, legumes no forno.


P: Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R: O porco.


P: Acha que sabendo mais acerca da senciência dos animais e das suas aptidões e emoções fica mais motivado a optar por este tipo de alimentação?

R: Sim. Mas creio que se um porco ou um cabrito não fossem "sencientes" neste momento faria o mesmo. Para mim, toda a Terra é sagrada e não só os animais.


P: Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R: Creio que sim: tortura animal, assassínio em massa, crueldade e poluição.


P: Pensa ser importante informar-se as pessoas acerca destes assuntos?

R: Penso que deveria ser a principal causa de todos os Governos do Planeta.

P: O que acha deste movimento que apela à redução do consumo de carne? Pensa que esta atitude individual bastante simples poderá ter um impacto positivo no mundo?

R: Acho-a extremamente importante: primeiro um dia...Depois dois...Três... ou seja: um passo de cada vez

Pedro Valdjiu

Pedro Valdjiu . Músico

 

P: O que o levou a adoptar o vegetarianismo?

R: Sou vegetariano porque nao quero deixar para traz um rasto desnecessário de morte animal. Ja chega a vegetal...?
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P: Prefere fazer as suas refeições vegetarianas em casa ou frequenta restaurantes??

R:  Não frequento muito restaurantes, gosto de uma boa fogueira com beringelas assadas na chapa quente e chapatis feitas na hora.

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P: Tem facilidade em obter refeições vegetarianas quando anda em digressão?

R: É muito dificil comer quando ando em digressão. Este portugal ainda tem muito que aprender sobre o vegetarianismo. A maior parte das vezes olham para nos como doentes ou estranhos...

 

?P: Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R: O cavalo

P: Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R: Um dia vamos olhar para traz e vamos ter vergonha do que andamos a fazer aos nossos irmãos Homens e Animais!? ?? 

 

?P: Pensa ser importante informar-se as pessoas acerca destes assuntos?

R: A informação sobre tudo o que possa equilibrar mais a Humanidade é de muito valor.
? ?

P: Acha que este movimento das Segundas Sem Carne poderá ter um impacto positivo?

R: Sim. Venha o da terça, da quarta e por ai fora ate libertarmos a Terra do sofrimento animal e humano.

https://www.facebook.com/b.mechanism

Carolina

 

P: Olá Carolina, comes carne?

R: Não. Quero dizer, na escola como.



P: Carolina, que idade tens?

R: 6

 

P: E gostas de comer animais?

R: Não.

 

P: E porquê?

R: Porque eles sofrem.

 

P: Preferias não comer animais?

R: Sim.

 

P: Gostas de seitan e tofu?

R: Gosto.

 

P: E na escola gostavas de não comer animais?

R: Eu queria muito comer sem ser de animal.

 

P: O que é para ti ser vegetariano?

R: Vegetariano é não comer animais, é comida sem ser animal.

 

P: O que sentes pelos animais?

R: São meus amigos.

 

P: Olha Carolina, as salsichas são feitas de animais?

R: As salsichas? Não.

 

P: Mas são …

R: Ai são? Ohhh…

 

P: E as perninhas de frango?

R: Essas são. São de vaca e de galinha.

 

Mensagem da Carolina aos amigos e às outras crianças: Não devemos comer os animais, porque eles sofrem.

 

Rui Reininho

 

Rui Reininho . Músico

 

P: Geralmente opta por realizar as suas refeições de 2ªf fora de casa? Acha fácil encontrar restaurantes que tenham essas opções? Ou costuma cozinhar em casa comida vegetariana?

R:2ªas feiras, como os domingos são dias caseiros: pouco ou nada de carne e peixe não é normalmente fresco...??

 

P: O que o motivou a tomar esta decisão?

R: São dias de recuperação, porque os meus espectáculos são quase sempre 6ª e sábados.

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P: Julga importante informar mais pessoas neste sentido? e porquê?

R: Embora considere a dieta dita mediterrânica minimamente saudável ( azeite, alhos, frutos, legumes, etc) há que contar com o efeito de seca vindouro e... consumir menos e beber mais a água ainda possivel em forma de chá, p.exp.

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P: Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R: Absolutamente. O Texas e a cidade mais "GORDA" do mundo, Houston, são obscenos.??

 

P: Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar? O que foi?

R: Fui criado a visitar matadouros e feiras de gado e sei o que isso representa ainda nos meus pesadelos.??

 

P: Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R: O ganso! Nunca mais comi "paté".??

 

P: Acha que sabendo mais acerca da senciência animal e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação?

R: Será de certeza o meu futuro...??

 

P: Acha que se não comer carne a sua saúde fica debilitada?

R: Não, de todo. Carne vermelha traduz-se em mais agressividade e defastio.

 

Cesár Augusto Moniz . Coreógrafo

 

P: Geralmente opta por realizar as suas refeições de 2af fora de casa? Acha fácil encontrar restaurantes que tenham essas opções? Ou costuma cozinhar em casa comida vegetariana?

R:Em casa. Sim já existem restaurantes vegetarianos, mas também costumo cozinhar em casa.


P:O que o motivou a tomar esta decisão?

R:O facto de ter mais cuidado com a alimentação-corpo


P:Julga importante informar mais pessoas neste sentido? e porquê?

R:Sim, para se tornarem mais saudáveis, e poluirem menos o planeta.


P:Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R:Sim, sobretudo mais poluição!



P:Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar? O que foi?

R:Sempre tive tendência, devido ao facto de ser um atleta e fazer yoga.

 
P:Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R:As galinhas, sempre a fazerem esforço para pôr ovos, lol


P:Acha que sabendo mais acerca da senciência animal e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação?

R:Sim claro, sempre tive animais adoro-os e respeito-os.


P:Acha que se não comer carne a sua saúde fica debilitada?

R:De todo!

Filipa Antunes

 

Filipa Antunes . Campeã Nacional de Halterofilismo (categoria 63kg)

 

P: Qual é o tipo de alimentação que segue?

R: Veganismo.??

 

P: Há quanto tempo pratica esse tipo de alimentação?

R: Uns cinco anos; antes disso fui vegetariana um ano ou dois, e já não comia carne desde os treze anos.

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P: O que a motivou a fazer essa escolha?

R: Tomei consciência do preço que se paga para comer carne. Não posso compactuar com o sofrimento e exploração animal de maneira nenhuma.

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P: Considera o vegetarianismo e, no seu caso, o veganismo, como sendo adequado a atletas?

R: Claro que sim. O veganismo é adequado a toda a gente, basta ter atenção e comer bem e variado.??

 

P: Como atleta tem alguns cuidados especiais com a alimentação?

R: Sim, tento fazer uma alimentação mais rica em proteína: grão de bico, feijão, lentilhas, soja texturizada, leite de soja, manteiga de amendoim, tofu, seitan, etc. De resto evito comer demasiado pão e massa; prefiro vegetais.??

 

P: Os atletas costumam tomar suplementos proteicos à base de leite. No seu caso, sendo vegana tem alguma alternativa a esses produtos?

R: Sim, há várias alternativas. A melhor é capaz de ser mesmo a proteína de soja, mas eu prefiro a de ervilha, para variar. Também já experimentei a de arroz, mas não acho que seja tão boa como as outras duas que mencionei.??

 

P: Costuma fazer as suas refeições vegetarianas em casa ou prefere ir a restaurantes?

R: Por norma em casa. Quando vou a restaurantes gosto dos indianos, onde é sempre muito fácil fazer uma boa refeição vegan, ou os italianos.

 

P: Quais são os seus pratos vegetarianos preferidos?

R: Gosto muito de caril, mas nunca recuso coisas mais simples e portuguesas como migas ou esparregado.

 

P: Está ciente do impacto que a produção industrial de carne, assim como a pesca intensiva, têm no planeta?

R: Sim, e é uma das razões pelas quais me mantenho e manterei vegan. Só temos um planeta!

 

P: Acha que as pessoas, em geral, estão bem informadas sobre o vegetarianismo?

R: Nem por isso. Há muita informação errada a circular: que o vegetarismo não é saudável, que somos todos anémicos e pálidos. Depois também há o estereótipo do vegetariano magrinho, que faz yoga e é de esquerda. Claro que há vegetarianos assim, mas também há vegetarianos gordinhos, desportistas, sedentários, de religiões e orientações políticas diferentes.

 

P: Pensa ser importante informar-se mais as pessoas sobre estes assuntos, seja relativamente à questão animal, seja a nível ambiental?

R: Sim, são as duas causas importantes, e ainda não se lhes presta muita atenção...

 

P: O que pensa desta campanha das segundas sem carne? Acha que uma atitude simples como fazer um dia vegetariano por semana poderá ter algum impacto benéfico?

R: Sem dúvida. É com pequenos passos que se começa, e as pequenas acções de muitos acabam por ter bastante impacto combinado.

Rita de la Rochezoire

 

Rita de la Rochezoire . Actriz e argumentista do programa "5 para a meia-noite"

 

P: Geralmente opta por realizar as suas refeições de 2ªf fora de casa? Acha fácil encontrar restaurantes que tenham essas opções? Ou costuma cozinhar em casa comida vegetariana?

R: No meu caso não são só as segundas. São já quase todos os dias de semana. QUASE. Costumo cozinhar em casa precisamente por não ser fácil encontrar opções vegetarianas nos nossos restaurantes para não falar na questão financeira que já todos sabemos qual é. E, sinceramente, porque também gosto. Dá-me prazer cozinhar as minhas próprias refeições, não só porque dessa forma faço ao meu gosto, mas como assim sei realmente o que é confeccionado e, em alguns casos, de onde vêm esses mesmos produtos. E se sei que os vegetais vieram da senhora X que tem uma hortinha no campo, melhor me sabem.??

 

P: O que o motivou a tomar esta decisão?

R: A paixão pelos animais e a noção de que é urgente uma mudança nos nossos hábitos alimentares. As consequências daquilo que comemos têm um efeito muito significativo para o planeta. Aliás, um dos mais fortes de todos...e que a maioria das pessoas desconhece. Este excessivo consumo de carne não só é prejudicial para a nossa saúde, como se traduz num impacto muito negativo para o ambiente. O ser humano é o único ser que se reconhece como um ser moral, por isso, é nossa obrigação tentarmos retardar os danos que há muito começaram a ser feitos. É fundamental consciencializarmo-nos de que a natureza não humana é mais do que um simples recurso ou meio para fins humanos.

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P: Julga importante informar mais pessoas neste sentido? e porquê?

R: É essencial. Estamos perante um desafio cuja resposta a dar terá que passar por uma alteração dos padrões de comportamento e a institucionalização de uma lógica de prudência. Haverá sempre um determinado grau de antropocentrismo, todavia é crucial estabelecermos regras de conduta que tenham como princípio provocar os menores males possíveis à natureza. É necessário procurar controlar o presente e reparar o passado em benefício do futuro. As questões ambientais devem ser tratadas com a mesma importância que a atenção reservada às questões económicas, sociais, políticas, etc. Na verdade, nenhuma outra questão merece mais atenção por parte da humanidade. Mas enquanto continuarmos a pensar e a agir em nosso próprio proveito, os animais continuarão a ser utilizados apenas para benefício do ser humano. O comboio já descarrilou...agora temos que o travar e, para isso, o homem terá de adoptar um novo conceito para fazer parte da sua filosofia de vida: a Ética Ambiental. Tudo aquilo que existe tem o seu grau de importância. Esgotar os recursos do planeta é pôr em risco o futuro de todas as espécies. É uma atitude auto-destruidora.

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P: Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R: Sim, mas também estou ciente que muita gente não. Habituados a ouvirmos falar na poluição como um dos principais responsáveis pelo aquecimento global, ignoramos, na verdade, o causador número um desse problema: a pecuária intensiva. Explicando isto como se fossemos todos criancinhas – que afinal é isso que somos…criancinhas a brincar com a pistola carregada que o pai guarda na mesa-de-cabeceira -, por mais absurdo que possa soar, sim, são os gases e arrotos que milhares de animais amontoados libertam, que contribuem para a maior percentagem geradora do aquecimento global. Sim, é o metano naturalmente produzido durante o processo de digestão desses animais. Então a culpa é deles? Claro que não. É do homem que, de forma antinatural, junta e cria outras espécies motivado por interesses económicos e ignorando as consequências da manipulação de seja qual for o produto (leite, carne, etc). Mas os efeitos desta indústria não ficam por aqui. Florestas continuam a ser transformadas em terrenos de plantação de soja que, por sua vez, servem de alimento para esses animais. E ainda há a questão do destino final a dar ao elevado volume de resíduos que nessas instalações são produzidos. O tratamento assombroso nas unidades de pecuária intensiva, não devia passar incólume. Mas convém a muita gente, muitas marcas, muitas empresas, andarmos todos de olhos e ouvidos tapados. No final de contas, o mundo não mudou assim tanto desde que a Alemanha estava sob domínio de Hitler, pois – e para citar Theodor Adorno “Auschwitz começa sempre que alguém olha para um matadouro e pensa: são apenas animais”.??

 

P: Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar? O que foi?

R: Não, nem sempre pensei assim, se bem que sempre simpatizei mais com animais do que com pessoas…verdade seja dita. Porém nunca fez sentido para mim animais em circos, ou touros a serem espicaçados com bandarilhas, ou até mesmo aqueles empregados de restaurante que vão até à mesa exibir a enorme sapateira viva antes de a mergulhar em água a ferver. E eu ainda como peixe. Há pessoas que gostam de me atirar à cara o seguinte argumento: “Não gostas de tourada, mas comes isto ou aquilo…” – argumento esse que não é minimamente válido, a meu ver. Porque uma coisa é a sobrevivência, são os hábitos alimentares enraizados, é um equilíbrio nutritivo…e outra, são estes rituais, são estas formas de “entretenimento”, é esta falta de respeito para com os animais – perfeitamente escusável – que mais não serve senão para dar a estes seres, que connosco partilham o planeta, uma morte lenta, sofrida e humilhante. A preocupação crescente para com os animais, fez com que, ao longo dos tempos, fosse vendo a realidade com menos e menos neblina na frente. Com menos areia nos olhos. E, claro, a minha ligação com o PAN faz com que, cada vez mais, queira ter um papel mais activo, mais exemplar e mais difusor. Já dizia Dalai Lama: “Sê a mudança que queres ver no mundo”.??

 

P: Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R: Especismo também é uma forma de preconceito. Sou capaz de abraçar um cavalo, como uma galinha. Aliás, as galinhas podem comportar-se inclusive como autênticos cães ou gatos quando pedem festinhas. Eu já testemunhei isso. Muita gente discrimina os membros de outras espécies por serem diferentes, por – supostamente – serem menos inteligentes e não terem a capacidade de sentir prazer ou dor. Jamais vou querer fazer parte desse número obtuso. Não consigo escolher um preferido. Há animais mais amistosos, mais dados…e há outros mais desconfiados.??

 

P: Acha que sabendo mais acerca da senciência animal e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação?

R: Não tenho a mais pequena dúvida. E quando pensarmos que a nossa atitude não vai ter o menor impacto no mundo, lembremo-nos do que disse Anita Roddick: “If you think you're too small to make a difference, you've obviously never been in bed with a mosquito in the room". Retomando a ‘ética ambiental’ que há pouco referi, este paradigma de pensamento reflecte sobre os valores que devemos atribuir ao ambiente e sobre os valores que devem orientar a nossa relação com o mesmo, tendo como pressuposto o reconhecimento de que o ambiente deve ser objecto de valor. E ambiente são também todas as espécies animais. Mas para isso é urgente uma mudança de mentalidade, uma nova conduta que passe por uma consciencialização ambiental e um pacto de preservação para com a Natureza.

 

P: Acha que se não comer carne a sua saúde fica debilitada?

R: Não se soubermos compensá-la. Uma alimentação pode até ser muito rica mesmo que não inclua carne. Não é como fazem determinadas figuras públicas que querem ser magras, não se informam das coisas, e depois vêm para a imprensa dizer que ‘andavam subnutridas’. Somos privilegiados com os alimentos que temos à nossa disposição. Só temos que saber escolhê-los.

Nuno Calado

 

Nuno Calado . Locutor de Rádio

 

P:Geralmente opta por realizar as suas refeições de 2ªf fora de casa? Acha fácil encontrar restaurantes que tenham essas opções? Ou costuma cozinhar em casa comida vegetariana?

R:Os almoços de 2ªf são sempre uma incógnita em relação a hora e local, umas vezes são em casa outras fora. Quando são em casa a comida vegetariana é a única solução pode acontecer na cozinha e até as cadelas gostam de provar. Quando são almoços fora existe sempre a preocupação de encontrar um restaurante onde possibilite a concretização de uma 2ªf sem carne. Quando deixei de comer carne era muito mais difícil encontrar esses restaurantes do que hoje em dia. Agora até os hipermercados já tem as suas secções vegetarianas. acho que nesta matéria Portugal evolui muito nos últimos 20 anos.

 

P:O que o motivou a tomar esta decisão?

R:Na verdade quando decidi há alguns anos deixar de comer carne foi apenas porque senti vontade de o fazer e porque estava numa fase de mudança, só mais tarde apareceu o lado racional apoiado em números e factos que levam qualquer um a ponderar o reduzir o consumo de carne ou até mesmo eliminar-lo.

 

P:Julga importante informar mais pessoas neste sentido? e porquê?

R:Claro que é importante informar as pessoas, penso que terá de ser feito de um modo em que não seja o bem vs o mal, deve deixar espaço para a decisão de cada um poder ser feita de plena consciência e por isso com uma vontade mais vincada e maior convicção. 

 

P:Está ciente dos problemas que acarreta o consumo exagerado de carne para o planeta?

R:Hoje em dia tenho uma noção muito mais real, não sei se será ainda a noção completa. Apesar de ter deixado de comer carne no inicio de 99, só tomei real conhecimento de alguns números que são verdadeiramente assustadores durante a campanha do PAN.

 

P:Sempre teve tendência a optar por este estilo de alimentação ou surgiu algo na sua vida que o fez mudar? O que foi?

R:Enquanto vivi em casa dos meus pais sempre tive uma alimentação em que a carne fazia parte dessa dieta. Quando sai de casa os meus habitos alimentares foram lentamente mudando e a carne foi passando para 2º plano, até que numa fase de alterações na minha vida privada me levaram a pensar que já que estava num período de mudança então que esta fosse maior e até mais saudável. Nessa altura deixei de comer carne e beber álcool, penso que foi tudo no mesmo dia.

 

P:Qual o animal de quinta com que mais simpatiza?

R:O cão é da quinta e não só por isso atiro mais um, o cavalo.

 

P:Acha que sabendo mais acerca da senciência animal e das suas aptidões e emoções lhe é mais fácil optar por este tipo de alimentação?

R:Sim. concerteza se eventualmente tivesse tido contacto com esse tipo de informação na minha adolescia provavelmente teria parado de comer carne mais cedo. No fundo o que é preciso é tomar consciência das coisas. Sinto que apesar de não ter sido desta forma que tomei a decisão de não comer carne, estou convicto que tomei a decisão certa para mim, para os animais e até posso dar a minha pequena contribuição para o mundo consumindo menos agua por exemplo.

 

P:Acha que se não comer carne a sua saúde fica debilitada?

R:De forma alguma! Nunca senti que ficasse mais débil, antes pelo contrario, sempre tive muitas alergias que desapareceram com a mudança de alimentação, até acho que fico menos vezes doente e tomo menos medicamentos. Penso que essa ideia de que quem não come carne fica mais débil é um verdadeiro mito urbano, a não ser que exista algum problema de saúde associado, o que só acontece em casos muito específicos.

As 2ªf sem carne deviam ser incrementadas na sociedade desde tenra idade nem que fosse para muitos descobrirem a diversidade alimentar. 2ªf sem carne a rockar desde 1999!

https://www.facebook.com/nuno.calado

 

Diana Sousa

Diana Sousa . Designer, 26 anos, Lisboa

 

P: És carnívora ou vegetariana?

R: Evito ao máximo comer carne. Só em situações pontuais, em casa de amigos que não têm alternativa, ou no estrangeiro quando tenho pouca opção, mas por escolha minha não. é uma escolha pelo que sinto pelos animais.

 

P: Quando é que tomaste essa decisão?

R: Eu sempre tive alguma sensibilidade com os animais e perante tudo o que acreditava achava que era insensato comer carne. No meio familiar não aceitam muito bem a minha opção, quando saí da faculdade e comecei a trabalhar, conseguida a independência financeira, ia ter a minha independência de escolhas.

 

P: No início como foi?

R: É sempre complicado quando as escolhas não se inserem no que é normal na sociedade.Há sempre os que gozam, os que acham ridículo. há muita resistência. É preciso alguma convicção.

 

P: E tentas influenciar?

R: Não imponho nada. Mas acho que já consegui que algumas pessoas se tornassem mais sensíveis aos meus motivos, o que já é importante.

 

P: Emocionalmente como te sentes com esta opção?

R: Sinto que sou mais justa comigo porque não estou a compactuar com uma coisa em que não acredito. Acho que é uma evolução de sensibilidade humana. Espero que toda a sociedade caminhe neste sentido.

 

P: Situações caricatas ?

R: Tenho algumas situações que são engradadas mas não têm muita graça. Do género: "não comes carne então faço-te uma sandes de fiambre" ou "tenho ali galinha". Mostra muita distância que as pessoas têm perante o que comem que é carne. É animal.

 

P: E o que achas da campanha?

R: Já o faço quase a 100%, por isso acho muito bem. Acho sobretudo que os esforços deviam ser feitos a nível escolar. Não tenho pretensão de mudar a geração dos meus pais, mas ensinar as crianças a respeitarem a vida dos animais, deixando de os ver como objectos. Se comessem carne que se saiba que houve respeito pelo animal. Se for preciso a minha ajuda, vou contribuir.

Paulo Borges

Paulo Borges . Presidente da Direcção Nacional do PAN - Partido pelos Animais e pela Natureza

 

P: A Campanha das 2ªs Sem Carne é uma iniciativa do PAN. Explique um pouco como está relacionado este movimento com as causas que o PAN defende?

R: Este movimento tem tudo a ver com as 3 grandes causas do PAN - animal, humanitária e ecológica - , que no fundo são uma só. Basta pensar no indescritível sofrimento dos animais nas unidades de pecuária intensiva, autênticos campos de concentração e tortura física e psicológica, onde são engordados à pressa uns em cima dos outros, fora dos seus habitats naturais, com luz artificial, alguns sem se poderem mexer, a morderem-se uns aos outros (esta é sem dúvida a pior das violências que o homem exerce sobre os animais). Basta pensar na sua carne cheia de toxinas, antibióticos e hormonas que nos envenena, num autêntico atentado à saúde pública (segundo a Organização Mundial de Saúde, mais de 75% das doenças mais mortais nos países industrializados advêm do consumo de carne). Basta pensar que o investimento na produção industrial de carne (e peixe) é um mau negócio, tem um terrível impacte ecológico e contribui para a fome no mundo. Todos os cereais e leguminosas produzidos em todo o planeta para alimentar animais para consumo humano poderiam nutrir directamente 2 000 milhões de pessoas, um terço da população mundial e o dobro dos quase 1 000 milhões que padecem de fome. Além disso, a produção de 1 kg de carne de vaca liberta mais gases com efeito de estufa do que conduzir um carro e deixar todas as luzes de casa ligadas durante 3 dias, consome 13-15 kg de cereais/leguminosas e 15 000 litros de água potável, o bem cuja crescente escassez já causa 1.6 milhões de mortes por ano e novos conflitos bélicos (ler artigo). A pecuária intensiva é responsável por 18% da emissão de gases com efeito de estufa a nível mundial, como o metano, emitido pelo gado bovino, que contribui para o aquecimento global 23 vezes mais do que o dióxido de carbono; 70% do solo arável mundial destina-se a alimentar gado e 70% da desflorestação da selva amazónica deve-se à criação de pastagens e cultivo de soja para o alimentar (cf. um relatório de 2006 da FAO, Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock's Long Shadow: environmental issues and options).

Reduzir o consumo de carne é reduzir o sofrimento de homens e animais e contribuir para a preservação do planeta. Consumir carne só interessa às multinacionais da pecuária intensiva e da indústria farmacêutica, que obtêm lucros astronómicos com o sofrimento, a doença e a morte de animais e homens.

 

P: Considera que a redução do consumo de carne é uma medida urgente?

R: Urgentíssima, por todas as razões apresentadas. É aliás a própria ONU que insiste na urgência de se caminhar para uma dieta sem carne nem lacticínios, pois é a única que pode alimentar de forma sustentável uma população mundial que deve atingir os 9.1 biliões em 2050 (cf. um relatório de 2006 da Food and Agriculture Organization, da ONU, Livestock's Long Shadow: environmental issues and options; veja-se também o artigo: UN urges global move to meat and dairy-free diet). O obstáculo, além da desinformação da opinião pública, advém das referidas multinacionais e do poder político que as serve, bem como de preconceitos antiquados de médicos e nutricionistas.

 

P: Sei que é vegetariano há alguns anos. Desde então como tem estado de saúde? Sentiu diferenças positivas?

R: Antes mesmo de me tornar vegetariano, deixei de beber leite de origem animal há cerca de 30 anos e reduziram-se imenso os frequentes problemas digestivos e respiratórios que tinha. Depois abandonei o consumo de carne e, à medida que me encaminhava para uma dieta vegetariana, a minha saúde foi melhorando cada vez mais, acontecendo o mesmo com a clareza mental e a sensibilidade. Trabalho hoje muito mais e canso-me muito menos do que quando era carnívoro. Há muitos anos que raramente vou ao médico e praticamente não tomo medicamentos (quando necessário, opto em geral pelas medicinas alternativas, no meu caso a medicina tibetana). O mesmo acontece com os meus filhos, que hoje são praticamente veganos.

 

P: Imagino que, sendo presidente da Direcção Nacional do Partido pelos Animais e pela Natureza, se tenha interessado em ver alguns dos vídeos chocantes sobre as condições dos animais na indústria da pecuária intensiva. Que nos pode dizer sobre este assunto?

R: Que é uma experiência dura, mas fundamental para tomarmos consciência do horror de que somos cúmplices ao comermos carne (e peixe). Temos de ter a coragem de ver esses filmes, para vermos o tremendo, injusto e inaceitável sofrimento e violência ocultos em que assentam as nossas vidas de pessoas ditas normais, civilizadas e pacíficas. Aconselho o Earthlings - http://www.earthlings.com/ - , que colocou de um momento para o outro os meus filhos na senda do vegetarianismo e do veganismo e que, no mínimo, tem levado imensas pessoas a reduzir o seu consumo de animais. Quem quiser um pequeno documentário mais conciso, pode ver também Farm to Fridge: http://youtu.be/THIODWTqx5E. Aconselho ainda a eloquente palestra de Gary Yourofsky: http://youtu.be/8bH-doHSY_o

 

P: O número de pessoas vegetarianas continua a aumentar. Acha que esta mudança de atitude em relação à alimentação também está relacionada com uma mudança de mentalidades?

R: Sem dúvida! Embora existam pessoas que, compreensivelmente, começam a reduzir o consumo de carne ou a tornar-se vegetarianas por estarem preocupadas com a sua saúde e estética, um número crescente faz essa opção por motivos éticos, tomando consciência de que não é justo comer animais nem contribuir para a destruição do planeta, além de não ser absolutamente necessário, pois dispomos de imensas alternativas à carne e ao peixe e ainda mais saborosas, se usarmos os temperos adequados. No fundo ninguém gosta do sabor da carne ou do peixe, mas sobretudo dos temperos… E a alimentação vegetariana ou vegana não é necessariamente mais cara: há que acabar com esse mito. No mínimo, já seria bom reduzirmos o consumo de carne para os níveis dos nossos avós e bisavós. Foi só com a geração dos nossos pais que surgiu o mito absurdo de que comer carne todos os dias era sinónimo de estatuto e qualidade de vida!...

A mudança de mentalidades é fundamental para que o futuro seja possível no planeta Terra e, com ele, um mundo melhor para todos, humanos e não-humanos. É esse o caminho e por ele vão seguir cada vez mais consciências despertas. Contamos contigo, leitor!

 

Prof. Amândio  Figueiredo . Presidente da Federação Portuguesa de Yoga

Depois de uma aula de Yoga no Museu do Oriente, junto à entrada, o professor, um homem de sorrisos e boa disposição, partilhou connosco as suas preferências alimentares.

P: Come carne?

R: Não. Não como carne. Ás vezes num restaurante ou em casa de amigos, carne de mamíferos não, carne de ave às vezes calha-me. De preferência nunca (risos).


P: Lembra-se com que idade assumiu esse tipo de alimentação?

R: Sim, tinha 16, 17 anos quando deixei de comer carne. Quando deixei de comer carne era muito novo, e na altura toda a minha família era carnívora, como qualquer bom português, eu próprio comecei a cozinhar lá em casa e fazia comida vegetariana para toda a gente. Já fazia Yoga também e acho que o Yoga foi uma grande prática que impulsionou o facto. Nunca foi por razões filosóficas, era mesmo pelo mau sentido de comer carne.
O Yoga definiu que para mim carne e Yoga não dá. Embora haja muita gente no Yoga que come, uma coisa não implica a outra.

P: Se perguntássemos pelos animais, pela saúde ou pela natureza, qual destes motivos falou mais forte?

R: A natureza, penso que a natureza. A Natureza, a parte mais subtil. Quando a pessoa percebe no trabalho do Yoga que a respiração é uma alimentação importantíssima. O Ambiente é mais importante. A Natureza é o mais importante, de onde vimos todos.

P: Como foi no inicio?

R: No início tive contestação familiar, gozo dos amigos, naquela altura... foi em 68, 69 ainda vocês andavam em viagens astrais, (risos). Mas na tropa foi o cabo dos trabalhos, mas felizmente estava numa zona de África muito fácil de apanhar fruta e outros e aí virei mesmo 100% vegetariano. A minha comida era discutida na messe, para ver quem é que ficava com o meu bife. Jogavam para ganhar o meu bife.


P: As pessoas que fazem Yoga procuram hábitos alimentares saudáveis?

R: Normalmente o próprio Yoga leva-nos a certa altura a que a pessoa comece a sentir uma certa incompatibilidade com a carne. Eu como assim, faço Yoga e não me sinto bem... se comer vegetariano, sinto-me muito melhor, então a própria pessoa naturalmente vai fazendo mudanças. São muitos os casos que conheço de pessoas que eram carnívoras e que ao longo da prática do Yoga dizem sentir-se muito melhor a não comer carne.


P: Influencia alguém ? Nota benefícios para a saúde?

R: Em termos de alimentação, quando me pedem conselhos, dou uma orientação com Ayurveda que é importante para a ligação do Yoga. É uma disciplina paralela com o Yoga. Ayur = saúde, veda = conhecimento, o conhecimento da saúde.
O fundamental do trabalho da Ayurveda é que a pessoa tem a saúde segundo aquilo que come, e daí que o Vegetarianismo é absolutamente assente, em que por exemplo o arroz é a base principal. Em relação aos benefícios de não comer carne, sim claro, sem dúvida.

P: Como é que se sente emocionalmente com esta escolha?

R: A maior sensibilidade, e melhor percepção emocional e maior controle. Não há raivas, digamos. Não se injecta na pessoa negatividade. Tudo o que é de emocional (sofre-se na mesma, tem-se tudo na mesma)  a sensibilidade é talvez um pouco maior mas também a aceitação e a resposta é mais pacífica. As pessoa que comem carne vermelha têm mais irritabilidade, etc.


Vegan? Com todo o prazer!

Vegan? Com todo o prazer!

Entrevista ao semanário SOL, 1 Nov 2012, por Gabriela Oliveira
Nunca comem carne, peixe ou alimentos com ingredientes de origem animal. Recusam-se a usar lãs e acessórios em pele. Quem são os vegans portugueses e o que os move? O percurso, os motivos e as estratégias de seis vegetarianos puros, ainda antes do Dia Mundial do veganismo, que hoje se comemora.

A decisão gera sempre controvérsia. Quando alguém em casa anuncia que vai deixar de comer carne, peixe e todos os produtos que contenham ovos ou lacticínios, o efeito pode assemelhar-se a uma ‘catástrofe’ familiar. «Vais comer o quê?». «Não podes alimentar-te só assim!». «Já não queres a minha comida?». Receios e desabafos típicos de quem se depara com a determinação dos filhos ou do companheiro de se tornarem vegetarianos restritos, excluindo todos os produtos de origem animal da alimentação e do vestuário.

Entre vegans conhecidos, estão nomes como os músicos Moby e Bryan Adams, a atriz Pamela Anderson ou o atleta Carl Lewis. O veganismo está a aumentar no nosso país, à semelhança do que se passa na Europa, nos EUA ou no Brasil. «Há mais informação, as pessoas estão mais atentas e quando algo nos toca, mudamos mesmo», comenta Nuno Metello, um dos activistas portugueses para a mudança alimentar.

Que motivos podem levar a esta escolha, que deixa de fora tantos alimentos, como os vulgares bolos de pastelaria, e exige estar atento a rótulos e etiquetas? A mudança tem quase sempre a ver com razões de ordem ética, ecológica e de saúde. A forma como os animais são produzidos, tratados e abatidos está longe da preocupação da maioria das pessoas mas incomoda quem tem interesse em saber de onde vem a comida e que impacto provoca.

São conhecidos os efeitos nocivos do consumo excessivo de carne e de gorduras animais para a saúde, mas outras consequências têm sido debatidas, sobretudo ligadas à poluição e degradação ambiental. A produção intensiva de carne é apontada pela Organização das Nações Unidas como «um dos factores que mais contribuem para os mais sérios problemas ambientais» e é responsável por 18% das emissões de gases com efeito de estufa, mais 40% do que todo o sector dos transportes. Números detalhados no relatório Livestock’s Long Shadow, que os vegetarianos levam muito a sério.

Do teatro à doçaria
Maria Oliveira Dias desafia quem não acredita que os bolos podem ser feitos sem ovos, sem leite, sem açúcar e sem gordura, a provar os seus! «Os meus bolos não têm nada disso, nem uso corantes sintéticos», diz a autora do blogue The Love Food, enquanto coloca sobre a bancada vários cupcakes e um vistoso bolo com recheio e cobertura de cacau. Vegan e gulosa assumida, como não encontrava à venda os bolos de que gostava, resolveu dedicar-se à culinária e reinventar receitas que deixaram os amigos de água na boca.

«Criei o blogue para reunir informação sobre o vegetarianismo, mas que não fosse chocante porque isso sempre me causou angústia quando fazia pesquisas na net». Tem partilhado muitas receitas, conselhos e sugestões de moda, e acabou por fazer um menu de encomendas para dar resposta aos pedidos que iam surgindo. Os bolos «vegan, light e saudáveis», como gosta de frisar, são procurados, sobretudo, por pessoas diabéticas e crianças alérgicas. Mas já teve um desafio bem maior, que foi preparar um bolo de casamento e as sobremesas para uma boda inteiramente vegan.

Maria é vegetariana desde a adolescência e vegan há cinco anos. «Nunca consegui fazer a dissociação entre a carne e o animal. Quando era criança adorava sopa e fruta e se me dessem alguma coisa com nervos, ossos, espinhas ou sangue, era incapaz de mastigar e desatava a chorar. Não queria que os animais morressem», conta. Aos 13 anos comunicou à família a «catástrofe» e, depois de passar vários meses a tirar a carne e o peixe do prato, para dar ao cão debaixo da mesa, os pais renderam-se à ‘teimosia’ da filha e passaram a preparar-lhe refeições vegetarianas. Hoje é a cozinheira da família nos dias de festa. «Fecho-me na cozinha e preparo-lhes uma jantarada vegan, não têm outra escolha», admite entre risos.

Tirou o curso de teatro em Paris, mas o gosto pela pastelaria e a recente paixão pela horticultura estão a roubar-lhe o tempo para o palco. «Não há nada como comer as frutas e os legumes acabados de colher. Se pudesse, cultivava até os cereais para fazer a farinha para os bolos», conta, desvelando alguns truques da agricultura biológica. Vai todas as semanas à quinta da família em Viseu, para tratar das sementeiras e das colheitas, que lhe deixam rasto nas mãos delicadas. «Adoro trabalhar a terra, é duro mas é um relaxe toda aquela paz, rodeada dos meus cães».

Decisão de peso
Quem a vê, de cabelos longos e pulseiras nos braços, não a imagina a levantar halteres. Menos ainda que é campeã nacional de halterofilismo, na categoria de 63 quilos. Filipa Antunes, aos 25 anos, contraria o protótipo de um atleta de alta competição nesta modalidade: «As pessoas pensam que para se ter força é preciso comer muita carne e muitos ovos e ficam espantadas quando percebem que sou vegetariana».

Um desporto de força, como este, «não masculiniza ninguém», nem obriga a que se encha a barriga de bifes. Aliás, carne é coisa em que ela não toca desde os 13 anos. Quando entrou na universidade para estudar Comunicação Social tornou-se vegetariana e daí ao veganismo foi um passo: «Deixei de comer ovos e laticínios quando me apercebi do que isso implicava».

«Só te falta um bifinho para conseguires», provocam às vezes os colegas durante os treinos. Como é norma na modalidade, toma suplementos para compensar o desgaste de três horas de treino diário. Mas em vez de recorrer aos reforços proteicos à base de leite opta por um suplemento de proteína de ervilha. De resto, para reforçar a ingestão proteica, prepara muitas refeições com leguminosas, manteiga de amendoim, tofu, seitan ou soja texturizada.

Filipa, que até se considerava «uma pessoa preguiçosa para o desporto», descobriu o halterofilismo quando se inscreveu num ginásio para fazer exercício, num ano de interregno dos estudos. Agora está a completar o doutoramento em filmologia, em Norwich, Inglaterra, e vem a Portugal sempre que há competições, porque não pode competir no Reino Unido.

É difícil ser vegan? Nem por isso, considera Filipa. Em Inglaterra até a tarefa de ler os rótulos é facilitada porque muitos produtos ostentam a marca suitable for vegans, para além de quase todos os restaurantes terem menus com opções vegetarianas. Acredita que no futuro a indústria alimentar irá responder à maior consciência e exigência dos consumidores: «É uma decisão para a vida. Preocupa-me o sofrimento dos animais mas também as questões ambientais e a saúde».

Empreendedorismo vegan
Farta de calçar sapatos sem graça e sem qualidade e de andar à procurar de alternativas elegantes que não tivessem pele de animais, Paula Pérez criou a marca de calçado que gostava de ter encontrado: NAE, abreviatura de No Animal Exploitation. «Foi por uma necessidade própria, associada à lacuna que existia no mercado e à mudança cada vez maior da consciência social, que se está a verificar, sobretudo, no Norte da Europa», explica com entusiasmo, ao final de mais um dia de ‘correria’.

Paula é gestora de informação numa das maiores empresas de telecomunicações do país mas quando avançou para o negócio do calçado vegan, em 2008, ocupava o cargo de analista e ainda não lidava ??directamente com o mundo empresarial. Sentiu a latejar a sua «veia empreendedora» e, com a ajuda do marido, que é informático, voltou-se para uma das área de excelência da indústria portuguesa. «Recorremos a materiais como a cortiça, fibras naturais e peles sintéticas». A produção é assegurada por diferentes fábricas no Norte do país.

São muitos os serões em que fica a dar andamento a encomendas para lojas em quase todos os pontos do mundo, com várias colecções a decorrer em simultâneo, porque se na Europa é Inverno, na Austrália ou no Brasil é Verão. Alemanha, Holanda Itália e Austrália estão no topo da lista dos maiores clientes. Já teve alguns pedidos curiosos, como umas sandálias em cortiça bordada a algodão para uma noiva em Itália. «Há uma procura crescente, não só pela questão da exploração animal, mas também por motivos ecológicos. A indústria das peles e dos curtumes é muito poluente».

Em muitos contextos profissionais, Paula Pérez prefere nem mencionar que é vegan: «Se disser que me contento com uma saladinha as pessoas aceitam porque sou mulher. Já um homem não é bem assim». Deixou de comer carne há 11 anos e desde há cinco que é vegan. «Sinto o maior respeito pelos animais, não consigo comer nada que lhes pertença nem usar algo que resulte da sua exploração», justifica. Em casa as filhas e o marido já aderiram às refeições vegetarianas e até o gato e os dois cães, que foram resgatados da rua, comem rações à base de soja. «Carne não entra nesta casa».

A arte do ativismo
Foi um vídeo na internet, há sete anos, que despoletou a mudança de Nuno Metello. Deparou-se com imagens arrepiantes de cães esfolados para a indústria do pêlo e não conseguiu parar de pesquisar. As pistas levaram-no ao documentário Meet your Meat, a gota de água para deixar de comer carne e peixe. «Recebi em casa um Kit Vegetariano enviado pela organização internacional PETA, com indicações de como fazer a transição».

Mas Nuno estava habituado a que a mãe pusesse a comida na mesa e a decisão não foi fácil de pôr em prática. Muniu-se de argumentos para acalmar os receios da família e três meses depois, nem ovos ou queijo comia. «Agora reconhecem que é mais saudável e vão aderindo a muitos alimentos que antes nunca tínhamos se quer provado».

Saudades do queijo teve, mas da carne não. Já não era apreciador e alguns alimentos com sabores fortes, como os enchidos, só aprendeu a gostar na versão vegetariana. «Há cada vez mais produtos e a preços acessíveis. Já não é difícil ser vegan», admite o ilustrador de 29 anos que dedica parte do seu tempo ao activismo em defesa da mudança alimentar no grupo Segundas Sem Carne. Um movimento internacional, apoiado por várias figuras públicas, que sugere que se deixe de comer carne, pelo menos, uma vez por semana.

O interesse foi tal que Nuno tem pesquisado sobre as origens do vegetarianismo no mundo e reunido muitos livros e documentos que mostram que em Portugal a primeira associação vegetariana foi fundada há mais de um século. «É curioso que já em 1909 o salão nobre do Ateneu Comercial do Porto enchia para ouvir o escritor Jaime de Magalhães Lima falar de vegetarianismo. Como ele dizia: ‘Tem os seus pergaminhos, não é uma doutrina nascida de ontem’». E os argumentos usados nessa altura não eram muito diferentes dos de hoje.

«O planeta entraria em colapso se todos reivindicassem comer carne e peixe diariamente como os ocidentais», lembra Nuno. O planeta não teria capacidade para produzir cereais para alimentar tantos animais nem para superar a poluição. Gastam-se entre 13 a 15 quilos de cereais e leguminosas, e quinze mil litros de água potável, para produzir apenas um quilo de carne de vaca, quando esses mesmos recursos «podiam ser directamente usados na alimentação e no combate à fome no mundo», referem vários relatórios das Nações Unidas.

Bloguer sem fronteiras
Se já procurou receitas vegetarianas e vegans na net, é muito provável que tenha ido parar a uma das muitas páginas organizadas por Maria de Lourdes Carapelho. Sozinha e a partir de casa, a ex-professora de Inglês do ensino secundário mantém activos vinte blogues e meia dezena de páginas no Facebook. Nem todas são dedicadas à alimentação e aos direitos dos animais, mas a maioria tem subjacente esse objectivo e conquista milhares de visualizações.

Um acidente obrigou-a a reformar-se e sobrou-lhe tempo para ficar em frente ao computador. «Às vezes fico de boca aberta quando vejo as estatísticas do Facebook», diz Lourdinhas, o nome pelo qual gosta de ser tratada. A página com mais sucesso é a das Receitas Vegetarianas/Veganas que em pouco tempo alcançou nove mil ‘Likes’ e chega a mais de vinte e cinco mil pessoas por semana.

De quase tudo consegue-se uma boa receita! «Até das cascas de banana se faz uma óptima sobremesa ou das sobras das ervilhas uns hambúrgueres para o jantar», garante. A cozinha vegetariana não é cara, nem tem que ser complicada. Para destrinçar essa ideia e reunir num só local todas as receitas vegetarianas que ia encontrando na net, criou, em 2007, o blogue Universo dos Alimentos. Tem para cima de três mil receitas doces e salgadas, onde se pode aprender a fazer omeleta sem ovos, leite de nozes ou até seitan caseiro. Tudo em português, porque uma das principais fontes de inspiração é o Brasil.

Quando ainda ninguém sonhava com o facebook, já Lourdinhas andava nos chats do mIRK e do Orkut a trocar ideias. «Quase não havia informação sobre vegetarianismo nessa altura». Foi há 20 anos que mudou para o regime vegetariano e, desde há 11, é assumidamente vegan: «Custou-me imenso deixar o queijo. Era queijo-dependente, comia a todas as refeições. Agora nem me lembro dele». O leite de soja e os ‘queijos vegetais’ que prepara em casa, ocuparam o lugar dos lacticínios.

O que a fez mudar? Um conjunto de argumentos, que não se cansa de repetir: «Em primeiro lugar, não é suposto bebermos leite depois do desmame. Somos os únicos seres que continuam a beber leite e, ainda por cima, de outra espécie. A questão do cálcio é um mito, porque existem outros alimentos que fornecem mais cálcio e com menos gorduras». Outras razões de peso são as enzimas presentes no leite que são indigestas «e que estão na origem de alergias e problemas respiratórios, para além dos vestígios das hormonas e fármacos que são aplicados nas vacas leiteiras». Há ainda uma questão ética que pesou na sua decisão: «A vida a que estão sujeitas. As vacas são como as mulheres, só dão leite se estiverem grávidas, por isso são continuamente engravidadas».

Podia ser pequena, em idade e estatura, mas Maria de Lourdes sempre foi destemida na defesa dos animais. Em criança era «o terror da vizinhança» porque onde visse animais presos ela encarregava-se de os libertar. Abria as portas dos galinheiros, coelheiras, pocilgas e pombais, na esperança de que os animais fugissem e escapassem à faca. Ficava angustiada com os gritos estridentes da matança ? dos porcos e de lágrimas nos olhos quando era obrigada a comer a carne que se «enrolava na boca», no restaurante dos pais, e que tentava esconder no guardanapo. Hoje tem o neto como aliado, e muitos dos fãs das suas páginas.

Nem melhor nem pior
Em cada ano lectivo, o assunto vem à baila. É quase impossível evitar a curiosidade dos alunos e dos colegas quando se apercebem que Orlando Figueiredo é vegetariano. «Os meus alunos perguntam-me muito o porquê da minha escolha? E alguns já tentaram mudar, com algumas discussões em casa», conta o professor de Física e Química, 45 anos, agora em pausa do serviço docente para concluir o doutoramento.

Na cozinha nunca se atrapalha. Gosta de cozinhar e leva muitas vezes a comida de casa para a escola, por ser mais prático. Chegou até, no período de exames, a preparar na cantina um almoço colectivo vegetariano. A ideia agradou tanto, que a própria escola instituiu que uma vez por semana a cantina tivesse refeições vegetarianas para os alunos e professores.

Segue o regime vegan desde há um ano e meio: «Sinto-me melhor porque tinha tendência para abusar dos queijos e iogurtes», reconhece Orlando. Em 2001 deixou de comer carne e peixe mas confessa que às vezes comia o que lhe punham à frente «porque estava cansado da reação das pessoas e de ter de estar sempre a justificar porque é que não comia animais», mesmo quando nem tocava no assunto.

Às vezes não é fácil! As pessoas irritam-se por ele não partilhar da mesma refeição e tomam a decisão como «uma afronta ou uma declaração de superioridade moral, quando não é nada disso!». Orlando esclarece: «Ser vegan não faz de mim uma boa pessoa, não sou melhor nem pior do que os outros apenas por isso. Pode ser eticamente louvável ter um comportamento que protege a vida dos animais, tal como há muitos outros gestos, de solidariedade, que o são também».

Ainda reina a visão antropocêntrica no mundo. «A indiferença face aos animais e ao ambiente tem a ver com a noção de que o Homem, por ter intelecto, está acima de tudo e todas as espécies, o que não é verdade. Somos apenas um entre pares, uma parte do todo».